segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ACAÇA





As definições mais elementares do acaçá (àkàsà)  é de uma pasta de milho branco ralado ou moído, envolvido, ainda quente, em folhas de bananeiras. A definição é correta, mas extremante superficial, pois o acaçá é de longe a comida mais importante do candomblé. Seu preparo é forma de utilização nos rituais e oferenda. Envolvem preceitos e regulamentos bem rígidos, que nunca podem deixar de ser observados.
Todos os orixás, de Exu a Oxalá, recebem acaçá. Todas as cerimônias, do ebó mais simples as sacrifícios de animais, levam acaçá. Em rituais de iniciação, de passagens fúnebres e tudo o mais que ocorra em uma casa de candomblé só acontece com a presença do acaçá. A vida e a morte no candomblé se processam à partir desta oferenda fundamental, sem a qual nenhum homem seria poupado dos dissabores e percalços do destino. Quando recorremos á história dos orixás, percebemos o grande mal que a humanidade todas as vezes que se afasta do poder divino, representada, nesse caso, pelo poderoso Orun, a morada de todas as divindades, e pelo supremo, senhor do Destino dos Homens. Olodumaré, também conhecido como Olorum (Zambi).
Só existe uma oferenda capaz de restituir o axé e desenvolver a paz e a prosperidade na Terra, ela é justamente o acaçá. Mas o que faz de uma comida aparentemente tão simples a maior das oferendas aos orixás?

Será que todos sabem o que realmente é um acaçá?
Façamos então uma classificação dos elementos que compõem o acaçá para chegarmos à derradeira conclusão. Primeiramente, é preciso esclarecer que a pasta branca à base de farinha de milho (que fica alguns dias de molho e depois passada pelo pilão ou moinho) chama-se na verdade eco (èko). Depois de coxear, uma porção da pasta ainda quente, é envolvida em um pedaço de folha de bananeira para enrijecer (na África é utilizada outra folha, chamada èpàpo), tornando-se, agora sim, um acaçá. (Hoje em dia nós temos a facilidade de encontrar o milho vermelho moído que é o fubá vermelho e o milho branco que é o fubá branco, mais existem sacerdotes que ainda utilizam o ritual de antigamente).
Percebe-se a fundamental importância da folha de bananeira, uma vez que o eco só passa a ser acaçá quando envolvido em uma folha verde que lhe atribui existência individualizada, pois passa a ser uma porção desprendida da massa, assim como e emi, que dá vida aos seres, é, na verdade, uma parte da atmosfera, ou do próprio Olorum, que todos ser leva dentro de si, o sopro da vida, o ar que respiramos.
Portanto, o acaçá é um corpo, o símbolo de um ser. A única oferenda que restituí a redistribui o axé.
É importante insistir que o que faz do acaçá um corpo único, eminente representação de um ser, é a folha, seu poderoso invólucro verde, que lhe confere individualidade e força vital diante do poderoso orun, os orixás e do grande Deus Oludumaré.
Somente a água é tão importante quanto o acaçá, pois não existem substitutos para nenhum dos dois, que são, a exemplo do obi, elementos indispensáveis em qualquer ritual. Ambos configuram-se como símbolo da vida, e é justamente para afastar a morte do caminho das pessoas, para que o sacrifício não seja o homem, que são oferecidos.
O acaçá remete ao maior significado que a vida pode ter: a própria vida. E por ser o grande elemento apaziguador, que arranca a morte, a doença, a pobreza e outras mazelas do seio da vida, tornou-se a comida e predileção de todos os orixás.
Fato é que quem não faz um bom acaçá não é um bom conhecedor do candomblé, pois as regras e diretrizes da religião nunca foram ditadas pela intuição. “Constituem grandes fundamentos cristalizados” ao longo de anos e anos de tradição. Aos incautos vale afirmar que candomblé não é intuição, mas fundamento sim, e fundamentos se aprende.
Fundamento é o segredo compartilhado, o detalhe que faz a diferença e a prova de que ninguém pode enganar o orixá.
O acaçá deve permanecer fechado, imaculado até o momento de ser entregue ao orixá. Só então é retirado da folha. É como se o sagrado tivesse de ficar oculto até a hora da oferenda, prova de que o segredo é quase sempre um elemento consagrado. E o segredo do acaçá é enrolar na folha de bananeira, é o que mantém um terreiro de candomblé de pé. Não existe acaçá que não seja enrolado na folha de bananeira..
Entretanto, a imprudência vigora em muitos terreiros e não raras vezes se ouve falar de novas iguarias apresentadas como acaçá. Os mais comuns são os acaçá de pia e de forma. No primeiro caso a massa de ecó, mais grossa, é colocada às colheradas sobre o mármore das pias, onde os bolinhos esfriam antes de serem utilizados nos ritos. Na segunda receita a massa é espalhada em uma forma e posteriormente cortada em quadradinhos. Este é um procedimento incorreto e condenável, e as pessoas que agem assim então fadadas ao insucesso e não podem ser consideradas pessoas de axé.
Não há candomblé sem acaçá, nem acaçá sem folha. A religião dos orixás não admite modificações na essência na essência, e esta comida é essencial, portanto, inviolável. Primeiro vem o acaçá antes dele só a vida. Logo, a folha de bananeira guarda uma vida. Deixar a massa do acaçá exposto é o mesmo que deixar a vida vulnerável. Eis o grande fundamento.



Texto: Gongofila - Tata de Nkice Ananguê de N'gola Djanga ria Matamba

26 comentários:

Anônimo disse...

muito bom esse texto !

Anônimo disse...

Realmente, muito bom este texto!

Dá todo o sentido para o "fazer" esta comida tão sagrada!

Anônimo disse...

Boa noite!

Tenho uma dúvida: uma mãe de santo me disse que preciso preparar 3 acaçás para oferecer a oxum. Gostaria de saber se tenho eu mesma que preparar esta comida e, se sim, como devo fazê-lo, como oferecer... eu apenas me interesso pela religião, mas não sei fazer os rituais. Ou, se ela mesma pode preparar, para oferecer em meu nome... Estou um pouco confusa!

Obrigada,
Aline.

Hunso Sueli de Vodun Abe disse...

Aline me desculpe mas, sinto muito não poder responder sua pergunta, aqui no blog, por questões éticas. Sugiro que vc tire as suas dúvidas com a mãe de santo que avaliou a necessidade desta oferenda. Por vc ser uma pessoa interessada pela religião, estou a disposição para qualquer esclarecimento ou dúvida que vc tenha sobre a utilização do acaça ou outro assunto que lhe deixe confusa.
Meu e-mail está publicado no meu perfil, sinta-se a vontade.

Agrimas disse...

Lindo seu texto, ao mesmo tempo poético e instrutivo, parabéns e muito axé!

Anônimo disse...

Olá,
fiquei emocionada com o texto ... e como os fundamentos às vezes são passados e a gente só se dá conta depois que as coisas acontecem... Parabéns pelos conhecimentos deste blog !!!Todos temos muito que aprender !
axé
namanistê
ProfªMs. Thais Rosa
São Paulo

Anônimo disse...

ola parabens por estes esclarecimentos foi de suma importancia obrigado Nésia

Anônimo disse...

Olá,parabéns pelo texto.
Gostaria de saber se existe acaçá doce. Uma vez fui a uma festa de candomblé e comi um acaçá enrolado em folha de bananeira muito gostoso(doce). Se existir vc poderia disponibilizar a receita.
Desde já agradeço!
Armando

Hunso Sueli de Vodun Abe disse...

Obrigada Armando. Existe sim. É muito utilizado nas cerimônias dedicadas a Orunmilá. No preparo do acaça ritualístico, o milho é macerado em água fria e depois moído, cozido e envolvido, ainda morno, em folhas verdes de bananeira, passadas na chama para amolecer e poder ser enrolado.
Se vc só quiser a receita para sua degustação, é só preparar da mesma forma que se prepara um manjar, apenas substituindo a maizena pela farinha de milho branco, vendida em qualquer supermercado.

Anônimo disse...

Felizmente há colaboradores conscientes da realidade que a transcendência da matéria nos ensina para que se observe o valor e o respeito que os orixás merecem e exigem para o verdadeiro axé.

Anônimo disse...

Ola, recentemente estive em uma casa e uma mãe de santo passou um trabalho para mim, para eu ter meu amor de volta pediu para que eu comprasse acaças colocasse o nome do meu namorado com bastante mel enrolasse novamente deixasse por tres dias em casa e depois oferecesse colocando em um matinho verde eu fiz com muita fé. Isso é verdadeiro ou pode afastar ainda mais ele? Por favor me ajude.

Danyela

Anônimo disse...

estava prestes a fazer algo errado, iria prepar a iguaria mas não iria utilizar a folha pois não há facilidade para encontrar aqui em SP.

Muito AXÉ.

Hunso Sueli de Vodun Abe disse...

Danyela, me desculpe mas se uma pessoa me mandasse comprar acaças eu correria dela, não se preocupe, nada vai acontecer, nem de bem e nem de mal, apenas nada.

Hunso Sueli de Vodun Abe disse...

Sem folha só é oferecido aos orixás funfun.

Ekedy de Oyá disse...

Parabéns pelo belo texto!
Porém, o que mais me chamou atenção, alem da grande importância do acaçá, foi quando mencionou que no candomblé tudo tem um fundamento, e este deve ser aprendido... e não funciona por intuição. Isso deveria ser uma constante na vida de todos os nossos irmãos que desfrutam do nosso belissimo e rico candomblé!
Axé!

Anônimo disse...

caro sr
o milho 'e uma cultura agricola americana.na africa,antes da descoberta das americas e do intercambio de produtos agricolas, que farinha era usada para fazer um acaça

Hunso Sueli de Vodun Abe disse...

Provavelmente da farinha de sorgo, que era cultivado na Africa, alguns mil anos AC.Grão este muito parecido com o milho.

Denny Azevedo disse...

Poderia me explicar o que significa "quebrar o Acaçá"?

Denny

Hunso Sueli de Vodun Abe disse...

Denny infelizmente não posso te ajudar, provavelmente este termo seja um palavreado utilizado dentro de barracão, que não tem nada haver com o acaça. Se isso for um fundamento, eu não conheço. Até te prometo perguntar aos mais velhos se alguém sabe do que se trata.

junior de odé disse...

motumba... meus parabens pelo testo muito explicado e sem desvendar os segredos da religião ... isso vai ajudar muita gente se todos fossem como você nossa religião não teria as palhaçadas q ta existindo, muito axé e q meu pai odé lhe de muita fartura...

Anônimo disse...

eu tbm não entendi o termo "quebrar o acaça"

Anônimo disse...

Boa tarde. Adorei seu blog muito instrutivo. eu quero saber se alguém poeria me passar a receita do abrazô ado e do abala de carimã. Ficarei muito grato. meu e-mail é igbi7777@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Boa tarde...Muito instrutivo o seu blog. eu que saber se poderiam por a receita do abrazô, abalá de carimão e do ado. meu e-mail é igbi7777@yahoo.com.br abrçs

Anônimo disse...

Boa tarde MEU NOME É VANDO eu acabei de pedir a receita do ado, abalá de carimã , abrazô e me esqueci do bolinho de tapioca. Sueli se vc puder me ajudar eu serei muito grato a vc. ABÇS igbi7777@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Em todas as nações de candomblé o acaça é o mais importante ? Tem que ser iniciado para oferecer um acaçá ou fazer ebos? É que eu já li que o culto ao orixa exu pode ser feito por todos ,mesmo sem ser raspado..obrigado

Marcelo Rufino disse...

Makuiu gostaria de saber se realmente é necessário a utilização de alguidar nas oferendas, uma vez que ele fica por anos na natureza sem se decompor? Não seria melhor fazer as entregas em cima de folhar de bananeira por exemplo? Desde já agradeço à atenção.