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sábado, 18 de agosto de 2012

TAMBOR DE MINA




Tambor de Mina é a denominação mais difundida das religiões Afro-brasileiras no Maranhão e na Amazônia. A palavra tambor deriva da importância do instrumento nos rituais de culto. Mina deriva de negro da Costa da Mina, denominação dada aos escravos procedentes da "costa situada a leste do Castelo de São Jorge de Mina" (Verger, 1987: 12) , no atual República do Gana, trazidos da região das hoje Repúblicas do Togo, Benin e da Nigéria, que eram conhecidos principalmente como negros mina-jejes e mina-nagôs.



O Maranhão foi importante núcleo atração de mão de obra africana, sobretudo durante o último século do trafico de escravos para o Brasil (1750-1850), e que se concentrou na Capital, no Vale do Itapecuru e na Baixada Maranhense, regiões onde havia grandes plantações de algodão e cana-de-açúcar, que contribuíram para tornar São Luís e Alcântara cidades famosas entre outros aspectos, pela grandiosidade dos sobradões coloniais, construídos com mão de obra escrava e pela harmonia, beleza e coreografia das musicas de origem africana. 


Como as demais religiões de origem africana no Brasil (Candomblé, Umbanda, Xangô, Xambá, Batuque, Jarê e outras), o tambor de mina se caracteriza por ser religião iniciática e de transe ou possessão. No tambor de mina mais tradicional a iniciação é demorada, não havendo cerimônias públicas de saída, sendo realizada com grande discrição no recinto dos terreiros e poucas pessoas recebem os graus mais elevados ou a iniciação completa. A discrição no transe e no comportamento em geral é uma características marcante do tambor de mina, considerado por muitos como uma "maçonaria de negros", pois apresenta características de sociedades secretas. Nos recintos mais sagrados do culto (peji em nagô, ou côme em jeje), penetram apenas os iniciados mais graduados. O transe no tambor de mina é muito discreto e as vezes percebível apenas por pequenos detalhes da vestimenta. Em muitas casas, no início do transe, a entidade dá muitas voltas ao redor de si mesmo, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, talvez para firmar o transe, numa dança de bonito efeito visual. Normalmente a pessoa quando entra em transe recebe um símbolo, como uma toalha branca amarrada na cintura ou um lenço, denominado pana, enrolado na mão ou no braço.



NoTambor de Mina cerca de noventa por cento dos participantes do culto são do sexo feminino e por isso, alguns falam num matriarcado nesta religião. Os homens desempenham principalmente a função de tocadores de tambores ou abatazeiros e também se encarregam de certas atividades do culto, como matança de animais de 4 patas e do transporte de certas obrigações para o local em que devem ser depositados. Algumas casas são dirigidas por homens e possuem maior presença de homens, que podem ser encontrados inclusive na roda de dançantes. 

Existem dois modelos principais de tambor de mina no Maranhão: mina jeje e mina nagô. O primeiro parece ser o mais antigo e se estabeleceu em torno da Casa grande das Minas Jeje (Querebentan de Zomadônu), o terreiro mais antigo, que deve ter sido fundado em São Luís na década de 1840. O outro, que lhe é quase contemporâneo e que também se continua até hoje é o da Casa de Nagô, localizada no mesmo bairro (São Pantaleão) a uma quadra de distância.




A Casa das Minas é única, não possui casas que lhe sejam filiadas, daí porque nenhuma outra siga completamente seu estilo. Nesta casa os cânticos são em língua jeje (Ewê-Fon) e só se recebem divindades denominadas de voduns, mas apesar dela não ter casas filiadas, o modelo do culto do Tambor de Mina é grandemente influenciado pela Casa das Minas.






Nos terreiros de tambor de mina é comum a realização de festas e folguedos da cultura popular maranhense que as vezes são solicitadas por entidades espirituais que gostam delas, como a do Divino Espírito Santo, o Bumba-Meu-Boi, o Tambor de Crioula e outras. É comum também outros grupos que organizam tais atividades irem dançar nos terreiros de mina para homenagear o dono da casa, as vodunsis e para pedir proteção às entidades espirituais para suas brincadeiras


Texto: Sergio Ferreti

quinta-feira, 26 de abril de 2012

JEJE-MAHI - ROÇA DO VENTURA


JEJE-MAHI

ROÇA DO VENTURA



Para se sentar na cadeira de Gayaku da Roça do Ventura tem que ser feita (iniciada) para o vodun Sógbó (sobô), ou Azonsú (lá Azansu) ou para Gbesen (Bé-sém), lembramos que no Ventura a Gayaku é termo dado aquelas que iniciaram pelo menos 1 filho para um vodum da família nagô (Ogun, Odë, Iyemoja, Osun,..., lá não se inicia Iyewa, nem Oba, nem Logunëdë)
Bem, a fundadora foi Ludovina Pessoa, que era iniciada de Ogun (um vodum nagô) obviamente ela não era iniciada de Azonsú, nem de Sógbó e nem de Gbesen, e obviamente não se sentou no trono, tendo-se aliado a Maria de Azonsú da família de Modubi (de José Maria de Belchior, originária do Terreiro do Pinho - Hunkpame Dahomé) da roça de cima para fundar a roça de baixo empossando uma de suas filhas (de Gbesen).

A lógica é que para sentar no trono de Gayaku tem que se iniciar lá um vodun nagô e ser iniciada para vodum propriamente dito, embora o conceito de vodum nagô varie dentro das ramificações do jeje. Por que isso? Isso porque Gbesen é o espírito da vida e assim sendo não compactua com nada que lembre a morte, daí o uso de sempre-vivas em preceitos como o gbo-etá (boitá), do beeko (quizila) com flores dignas de se cobrir defuntos, do não estabelecer casa de egun (asen), etc. como havia na roça de cima (de Modubi) etc.

Os mahis na realidade cultuam voduns que se relacionam diretamente com os orixás e deles tiveram origem de culto na África, e de sua região mahi. Assim comumente ouvimos sou de Sango de um filho de Sógbó e o mesmo de um filho de Aira (lembramos que sacerdotes do Benin afirmam que Sógbó é Sàngó).
Na roça de cima o termo gayaku herdado pelos modubis e pelos hoje, então, descendentes, designa aquela que é dirigente de um culto voltado aos voduns de nagô (um Nagô Vodum antigo), e não necessariamente a que inicia um vodum desta família, o título foi repassado com a criação da roça de baixo. Visto que Azonsu é termo próprio da família de Modubi.
Eguns e voduns que tiveram vida terrena como os reais do Dahomey não são cultuados em Mahi, todos os antepassados da casa são reverenciados (ja avalu) saudando-se e ofertando-se ao vodun Ayizan, sempre à frente da casa principal conforme Ajahuto o fez em Allada.
Os voduns mahis seguem conforme os orixás nagôs, são aqueles que de alguma forma morreram, seus corpos não foram encontrados, despareceram, subiram ao céu ou desceram pela terra, enfim se há sepultura (como a dos reis do Dahomey) não é cultuado como vodum Mahi.


Obs. Esse assunto é referente ao Jeje Mahi no Brasil e não no culto de voduns mahis no Benin onde reina Ainon (Sakpatá). Atualmente vemos o maravilhoso e reedificado asen de Savalou em memória à ancestralidade real do Palácio de Savalou. 
O Jeje Mahi de Cachoeira, Bahia e do Bogum de Salvador, Bahia (da mesma fundadora) tem como divindade principal Gbesen, que é do culto de Dàn de local próximo.


Texto: Ifabimi - http://papoinformalpapoinformal.blogspot.com.br

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O CANDOMBLÉ E O BATUQUE


O Candomblé assim como o Batuque, são formas africanas de se ver Deus. São cultos a natureza, às divindades que governam a mesma, segundo a determinação de Olorúm, palavra Yorubá para designar o Supremo Criador, Olô = Senhor, Orúm = Céu, ou seja: Senhor, Dono do Céu.
Como religiões mantêm os preceitos de acordo com as práticas que eram realizadas pelos seus mais antigos sacerdotes, ainda em sua terra natal, a África. Diferem-se entre si, nas qualidades dos Orixás, nas comidas e nas formas de cultos, porém, unem-se na mesma crença de que Olorúm, Deus, criou o mundo e seus Ministros os Orixás para que governassem o mesmo em seu nome, até porque, segundo os antigos africanos, o nome de Deus não deve ser pronunciado em vão.
Tanto no Candomblé como no Batuque, os Orixás, não são em hipótese alguma, superior um ao outro, são na verdade a unificação de suas forças em prol do bem da humanidade assim como, seguindo rigorosamente suas leis.
Assim sendo, os Orixás dependem um do outro para que possam agir e interagir em nossas vidas, abreviando nossos sofrimentos e nos ajudando no nosso crescimento material e principalmente no espiritual.
As formas de culto modificam, nas duas religiões, dado às áreas da África da qual descendem. Mesmo dentro das nações do Candomblé e do Batuque, existem diferenças nos cultos, pois é sabido que cada região tinha seu próprio culto às divindades.
As nações do Candomblé são assim divididas: Angola, Kêtu, Jêje, Nagô, sendo essas as principais, as nações mães, de onde se originaram as ramificações, como Bate Folhas, Engenho Velho, Gantois, Mahi, Bogun, Muxicongo, ente outras.
Já no Batuque, as nações se dividem entre si da seguinte forma: Jêje, Ijexá, Oyó, Cabinda e Nagô. São as nações do Batuque, como no Candomblé, a referência de suas origens, ou seja: cada nação pratica da forma mais aproximada possível os mesmos rituais que seus antepassados praticavam na Mãe África.
O Candomblé tem sua origem ainda no Brasil colônia, uma vez que a primeira casa fundada em Salvador, Bahia, foi o Ilé Axé Iyá Nassô Oká, que segundo as tradições foi fundada por três negras africanas que eram princesas em sua terra, sua data é em tor 1600. Uma outra casa de renome, é Ilê Maroiá Lájié, que foi fundada em 1636.
O Batuque muito embora seja também uma ramificação das nações africanas, teve seu iniício mais tarde, no Estado do Rio Grande do Sul. Consta nos registros que a primeira casa foi fundada já no século XIX, mais precisamente no período de 1833 e 1859. Também foi criado por escravos que viviam nesse Estado, e seu apogeu se deu quando um Príncipe chamado Custodio, chegou nessa terra no final do século XIX. Segundo alguns historiadores, esse Príncipe teria deixado sua terra, Ajudá, que se situava no antigo Dahomey, atual Benin, diante da promessa dos ingleses de que seu povo não sofreria.
O certo é que esse Príncipe governou seu povo com amor e sincera dedicação aos Orixás, e passou a ser visto por seus irmãos como um verdadeiro Deus.
As formas diferenciadas entre o Candomblé e o Batuque se dão também nas formas de se entregarem as oferendas aos Orixás, uma vez que suas comidas também se diversificam entre os dois seguimentos. Alguns aspectos se relacionam de forma comum, a exemplo de Xangô que no Candomblé é o único rei coroado, o mesmo se dando dentro do Batuque.
Na prática do Candomblé, temos Yemanjá como mãe de todos os Orixás, o que ocorre também dentro do Batuque. Existe, porém um Orixá conhecido no Candomblé como Nanã Burukê, que dentro do Batuque, segundo informações de alguns seguidores, seria um Yemanjá velha. Assim sendo, Nanã que para o Candomblé seria a priemeira esposa de Oxalá, sendo assim a mais velha de todos os Orixás, dentro do Batuque é conhecida como Yemanjá.
Outras diferenças existem entre os Santos das duas ramificações, como o dia de algumas divindades. Odé, por exemplo, é cultuado na quinta feira, já no batuque esse dia seria de Ogum.
Assim como Nanã para o Candomblé, existem Orixás que são cultuados somente no Batuque, como é o caso de Ogum Avagã, uma forma que somente dentro dos preceitos do batuque se conhece seus fundamentos.
Mas, o mais importante é sabermos que como religião, somos todos descendentes de uma mesma etnia: os negros e assim sendo, devemos nos comportar como irmãos, respeitando mutuamente e nos ajudando sempre que for necessário, principalmente dentro da intolerância religiosa, que fere a Carta Máxima de nossa Nação, a Constituição.

 Texto de autoria  do Sr.Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá. Babalorixá, escritor e pesquisador.

segunda-feira, 1 de março de 2010

JEJE MAHI - BOGUM

Bogum


                          


....O Engenho Velho da Federação possui, aproximadamente, entre 80 mil a 90 mil habitantes, caracterizados na sua grande maioria como afrodescendentes. Este bairro é considerado como “Quilombo Urbano”.
O fato de o Engenho Velho ter em seu território, vários terreiros de candomblé, contribuiu para isto. Comenta-se que este bairro foi resultado de escravos fugitivos, vindos de um engenho na sua proximidade. Sem dúvidas, o Terreiro do Bogum, entre outros, em função da sua história de resistência, deve ter contribuído para a caracterização deste bairro como um quilombo.
Interior do barracão do Terreiro Bogum. Foto: Valdir Argolo

O Jeje

Informa-nos Nicolau Parés do papel desempenhado pelo Jeje no Candomblé. Relata Félix Ayoh’omidire, em ÀKỌGBÀDÙN – ABC da língua, cultura e civilização iorubanas [1], que “a tão procurada etimologia do etinônimo ‘jeje’… só sobreviveu aqui no Brasil, onde se usa como uma referência para a tradição de Candomblé ewe-fon”.

A palavra ‘jeje’ não vem de “àjèjì”, termo iorubano que significa ‘estrangeiro’. O termo ‘jeje’ vem, seguramente, deste oríkì orílè de ìran àjèjè que é uma das linhagens originais que ocuparam a área central da atual República do Benin (antigo Daomé), fruto das primeiras migrações de núcleos iorubanos, que se instalaram no espaço que se estende até Tado, na atual República de Togo.
Segundo ele, os fons foram os últimos a chegar ao espaço geográfico na área que constitui a região central da República de Benin. Além de incorporem a sua língua e cultura, agregaram muitos elementos significativos desenvolvidos pelos seus vizinhos.
Ainda explica Félix, que “um exemplo disso é a presença de muitos voduns que são os paralelos de alguns orixás iorubás, voduns esses cujos nomes ainda refletem a sua origem iorubá. Por exemplo, o vodum Legba é o mesmo Exù Ẹlégbara; enquanto o Ṣàngó dos iorubanos virou Hevioso”.
Quanto ao sistema de adivinhação, embora seja chamado de Ifá entre os iorubanos, “é conhecido simplesmente como Fá entre os ewe-fon”. Em relação ao azeite de dendê, elemento fundamental da culinária religiosa, em especial na Bahia, foram os Aresas os introdutores da técnica de extração do dendê naquela região.
Quanto aos jeje, afirma o autor, são conhecidos em Cuba como arará, termo cuja origem ainda “não foi desvendada pelos historiadores até o momento atual”.
Concluindo, afirma Félix: “a minha tese a respeito da origem dos jeje é que esse povo estava com maior freqüência na sua identidade de ajeje aqui no Brasil, como isso acontece ainda hoje, em meios ioruba-africano… muitas pessoas só preferem citar seu oríle em vez de dar o seu nome próprio ou nome de família”.
O “Jeje”, é assim que o povo se refere, com carinho e reconhecimento, ao Zoogodô Bogum Malê Rundó, instalado no “fim de linha” do Engenho Velho da Federação. Parés testemunha o dinamismo de seus sacerdotes e sacerdotisas, no enriquecimento do patrimônio cultural religioso negro. Atores da resistência deste “modo particular de rezar”, adoçavam este “bom combate” com atos de dignidade.
A comunidade do Bogum expõe a sua particularidade dizendo-se único, embora haja a consciência de íntimas ligações com o jeje-marrim de Cachoeira, a Roça de Cima.
Esta Roça seria a continuidade do Candomblé do Bitedô ou Oba Têdô, localizada na Recuada. Ligado a este templo estaria o sacerdote Kixareme ou Tixarene e a venerável sacerdotisa Ludovina Pessoa da Irmandade da Boa Morte e elo de ligação entre Cachoeira e Bogum.
D. Ludovina seria a iniciadora do clã feminino do Bogum, através da realização dos processos iniciáticos de Maria Emiliana da Piedade, mãe carnal de Maria Luisa Piedade, a venerável Maria Ogorensi ou Angorensi, fundadora do Seja Hundé em Cachoeira, Terreiro contemporâneo da Roça de Cima onde, segundo comenta-se, reduto de concentração jeje, após a extinção da Roça de Cima.
Maria Romana Moreira, iniciada por Ogorensi, conhecida como Romaninha de Possu Betá Poji, desempenhou importante papel tanto em Cachoeira quanto no Bogum, onde assumira o papel de Deré, o segundo cargo jeje mais elevado, tendo apenas como superior o cargo de Doné, no Bogum, ou Gaiaku, em Cachoeira.
A ocupação deste posto se efetivou antes da ascensão de Maria Valentina dos Anjos, a sempre lembrada Doné Runhó, na direção máxima do Bogum.
Este vínculo entre o Bogum e os terreiros jeje-marim de Cachoeira recebe, por vezes, contestações, dividindo opiniões. Alguns mencionam o fato de Ludovina Pessoa ter sido a primeira mãe-de-santo do jeje-marrim, fato que alguns do Bogum contestam, alegando que esta era apenas uma das antigas amigas da Casa.
Lidamos com a falta de registros seguros, o que nos impede de uma posição consolidada, mas podemos optar que, provavelmente, Ludovina seria fundadora da Roça de Cima, em 1860, e teria ligações com o Bogum, no mínimo, como uma figura relevante, ou seja, muito mais que “uma amiga da casa”. Alguns mantêm a opinião que ela fora “uma antiga Mãe de santo jeje”.
Ao que parece, após o tempo de Ludovina, houvera uma marcante interrupção nas atividades do Terreiro, surgindo na memória coletiva o prenome Valentina e a identificação do seu vodum Adaen, como autoridade máxima, dissera certa feita Doné Runhó a pesquisadores do Ceao.


Doné Nicinha comandou o Bogum de 1978 a 1994.

O CLÃ

Dos anos 30 aos anos 50 comenta-se o sacerdócio da Doné Emiliana da Piedade, vodunsi de Ágüe. Seguida por Maria Romana Moreira, Romaninha de Pó, na condição de Deré, assumindo por um breve período os destinos do Bogum, entre 1953 a 1956, fato que não conta com a unanimidade.
A partir de Valentina Maria dos Anjos, a famosa Mãe Runhó, consagrada a Sogbo Adan, de 1960 a 1975, a linha sucessora parece clara e sem contestações.
Segue-se o período glorioso de Evangelista dos Anjos Costa, Lokossi, a sempre lembrada Mãe Nicinha, de Loko. Sua regência, mantendo as tradições mais caras do Bogum, estendeu-se de 1978 a 1994.
Chegamos aos dias atuais e à escolha da seguidora de Mãe Nicinha, cujos feitos memoráveis foram a reforma do espaço sagrado do seu templo e a solicitação da inclusão do Artigo 27o na Constituição Baiana. Os búzios, exaltados pelo Oluwó Agenor Miranda, em 30 de maio de 2002, indicou o nome de Zaildes Iracema de Mello, hieronímio Nandoji, uma filha de Azonsu, conhecida por Mãe Índia, neta da venerável Runhó, assumindo o cargo em 11 de agosto de 2003, com 36 anos de idade e no vigor da sua juventude.
Realizou a ampliação e reformas do sítio religioso do Bogum, (a primeira reforma fora feita na gestão de Gilberto Gil à frente da Fundação Gregório de Mattos e a segunda reforma na gestão do prefeito Antonio Imbassay).
A biografia religiosa de Mãe Índia, ou Nandoji Índia, começa com a sua iniciação pelas mãos de Doné Nicinha, tendo como pai pequeno o humbono Pai Vicente do Matatu, um grande sacerdote do rito jeje, iniciado na vida religiosa por Maria Romana.
Nandoji Índia seria a primeira na ordem iniciática, com a titulação de dofona do seu barco. Filha de uma família que manteve as tradições jeje, tem como pais dona Antonia Firmina de Melo e o sempre lembrado, pelos seus profundos conhecimentos das tradições religiosas jeje, Amâncio Melo.
Dedica-se atualmente à vida sacerdotal, já inaugurando alguns barcos (em torno de três). É difícil elaborar uma listagem completa dos iniciados no Bogum, porém julgamos serem muitos. Calcula-se em, no mínimo, 60 a 100 barcos somando-se os de Doné Runhó, Mãe Nicinha, Emiliana de Ágüe, Romaninha de Pó e Valentina.


Nandoji Índia é a atual dirigente do Bogum. Foto: Arlindo Felix

As Divindades

O Zoogodô Bogum Malê Rundó possui no seu quadro de divindades, dentre outras, os seus patronos – os voduns Bafono Deca e Ajonsu ou Azonsu -, regendo os destinos e cumeeira. A divindade máxima é Mawu-Lissa, Olissassa, Olissá, Olissasi. As suas festas realizam-se ao fim do ano, após o Ossé de Lissa- ritual restrito aos seus iniciados- e são muito concorridas.
O Bogum também realiza a sua missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em louvor a São Bartolomeu e São Jerônimo. O primeiro dava nome a sua associação civil, com o título de Sociedade Fiéis de São Bartolomeu do Terreiro do Bogum. Fundada em 1937, esta sociedade, na década de 1970, teve o privilégio de ser dirigida por Edvaldo dos Santos Costa, destacado ogã da casa, filho consangüíneo de Mãe Nicinha, que teve como mérito maior a reestruturação da entidade, com seus estatutos publicados no Diário Oficial em 16 de outubro de 1977.
Esta organização, representativa da atividade civil do terreiro, ficou inativa até 1983, quando, sob a presidência do Sr. Lídio Pereira dos Santos, venerável ogã da Casa e decano querido e respeitado, retomou suas atividades.
Atualmente, a organização civil sofre mais uma reformulação sendo que, em assembléia, foi inaugurada uma nova entidade com o nome de Associação dos Fiéis Jeje Mahin, numa postura de desvincular o terreiro de laços com o catolicismo. Embora se tenha alterado a denominação, as relações com a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ainda permanecem.
Os fiéis, ao chegarem à área da Avenida Vasco da Gama, em frente ao Terreiro da Casa Branca, vindos da missa, visitam este terreiro e em procissão, sobem a íngreme Ladeira do Bogum, com fogos e cânticos e contornam, no Largo das Palmeiras, o busto de Mãe Runhó, instalado pela prefeita Lídice da Mata. Vão em direção às portas do terreiro, onde incorporam os voduns e entram no templo, saudados pelos tambores, e no seu interior realizam-se as danças sagradas.
As festas, na tradição jeje do Bogum, têm os voduns Gum (Gu), Agangatolu, Ágüe e Logunedé; voduns da família dos Kavionô ou Kavionus: Sobô ou Sogbo, Pó ou Kpó, Badé, Adaen ou Adan, Ajiripapô ou Ajiribabô, Afonjá; o vodum Aziri ou Aziritobossi; o vodum Hoho ou Ibejes, o vodum Ajonsu, com festa dedicada ao patrono da Casa e de Mãe Índia; além de Nanã.
A 31 de dezembro acontecem as obrigações do Sé ou ossé de Lissa, onde se realiza a purificação dos assentamentos da entidade maior, que alguns chamam de “Águas de Oxalá”. Os ritos festivos se realizam nos meses de janeiro e fevereiro, sendo que neste, realiza-se o Olugbajé, a grande festa de Ajonsu, Omolu com um banquete comunal. O Bogum também cultua os Caboclos, no seu dia festivo e cívico, o Dois de Julho.
No repertório de atividades rituais vale destacar o zandró (a vigília sacra jeje) com procissões internas e ofertórios instalados aos pés das árvores sagradas, o boitá. Durante os dias do ano o Bogum realiza obrigações dos seus iniciados e rituais propiciatórios, dentre outros eventos comunitários em favor da população do bairro do Engenho Velho da Federação, além de atendimento aos que necessitam dos seus poderes religiosos.
Oferendas são realizadas pelo povo do Bogum, preferencialmente em árvores, no mar e fontes, no Dique do Tororó e, outrora, no Parque São Bartolomeu, por sua ligação com a entidade católica reverenciada pelo jeje.
O rito fúnebre da liturgia jeje é o zelim, zerrim ou sirrum, que equivale ao axexé da organização religiosa nagô e ao macondo da nação angola. Esta celebração é privativa aos falecidos de posição hierárquica elevada, sendo que na ocasião se homenageia personalidades ilustres falecidas de outras nações. Os ritos fúnebres do Bogum, a exemplo de outras casas, são realizados com cuidados e rigor, obedecendo as interdições decorrentes deste rito.

Um exemplar da divindade Loko, cultuada no Bogum. Foto: Xando Pereira

Fitolatria

O Terreiro do Bogum está intimamente associado às árvores. Assim é que a Gameleira (Fícus doliaria), representa uma divindade, uma hierofania do vodum Loko, a exemplo de um exemplar localizado no Caminho de São Lázaro, na Federação.
O exemplar anterior foi destruído, segundo dizem por ação de adversários religiosos do Candomblé ou simplesmente vândalos, ou fieis que colocavam velas na proximidade desta árvore. Outros atribuem a sua destruição a uma espécie de auto-combustão.
Conta-se da vinculação do Bogum com o Gantois através do fato de uma avó de Mãe Menininha, conhecida como Salakó, ter plantado naquele terreiro uma árvore consagrada a Azanodô.
O crescimento urbano, descontrolado, tem vitimado o “espaço floresta” dos Candomblés e o Bogum também tem sido vítima. A árvore-sacrário, vodum Azonodô, que habitava próximo ao terreiro tombou em 1979, de acordo com Jheová de Carvalho. Segundo ele, por ações de vândalos que a envenenaram sistematicamente até a sua morte. Dizem que ela teria gemido ao tombar.
No Bogum junto à casa de Omolu encontra-se uma árvore de Loko, objeto de culto, além de uma jaqueira, também sagrada. Existe ainda um bilreiro sagrado.
Encontramos uma acácia consagrada a Azonodô. Como elemento do reino vegetal, podemos ver as janelas e portas decoradas com mariô ( folhas desfiadas de palmeiras) relacionado ao vodum Gu.

Respeito e Admiração

As autoridades religiosas do Bogum gozam do respeito da comunidade do povo-de-santo. São citados em reconhecimento os nomes das Donés Emiliana, Ruinhó, Nicinha e Índia, inclui-se a Deré Romaninha de Pó, ekede Santa e os huntós ou ogãs Manoel da Silva, Romão, Amâncio de Melo, Edvaldo, Duarte, Lídio, Sargento Celestino, Gilberto Roque, Antonio Jorge, Jackson, Ailton, Luizinho, Tico, dentre muitos outros.
As suas festas são freqüentadas por centenas e centenas de amigos, simpatizantes e admiradores. O Bogum convive harmoniosamente com os templos vizinhos, a exemplo do Ilê Obá do Cobre, Tanuri Junçara, Casa Branca, Odé Mirim, Unzó Oquinin Bamborucema, Terreiro de Oxumaré, Terreiro do Gantois e outros distantes, incluindo os localizados em outros Estados em especial os do Maranhão (também reduto jeje) e os do Rio de Janeiro. Do ponto de vista internacional existem laços com o Benim e Haiti.
Citada em inúmeras obras, a comunidade jeje do Bogum recebe um bom conceito por suas práticas litúrgicas na etnografia dos cultos afro-brasileiros.
O Zoogodô Bogum Malê Rundó resiste ao tempo e aos desafios através do empenho da Nandoji Índia na manutenção das regras que sempre caracterizaram o povo do Bogum, educando os seus fiéis com valores elevados da sua história e digna resistência......

Texto: Jaime Sodré -


sábado, 30 de janeiro de 2010

TUMBA JUNÇARA



O Tumba Junsara foi fundado em 1919 em Acupe, na Rua Campo Grande, Santo Amaro da Purificação,Bahia, por dois irmãos de esteira cujos nomes eram: Manoel Rodrigues do Nascimento (dijina: Kambambe) e Manoel Ciriaco de Jesus (dijina: Nlundi ia Mungongo), ambos iniciados em 13 de junho de 1910 por Maria Genoveva do Bonfim, mais conhecida como Maria Nenem , cuja dijina Mam'etu Tuenda NZambi,, que era Mam'etu Riá N'kisi do "Tumbensi", casa de Angola mais antiga da Bahia. Maria Neném foi iniciada por um escravo angolano chamado Roberto Barros Reis, sua dijina era Tata Kinunga. Nlundi Ia Mungongo teve também como irmã de barco a Mametu Sasia Kia Pulú, que sempre conviveu com Nlundi Ia Mungongo, eles eram muito ligados.

 
Kambambe e Nludi ia Mungongo tiveram Sinhá Badá como mãe pequena e Pai Joaquim como pai pequeno.
O Tumba Junsara foi transferido para Pitanga, no mesmo município, e depois para o Beiru. Após algum tempo, foi novamente transferido, para a Ladeira do Pepino nº 70, e finalmente para Ladeira da Vila América, nº 2, Travessa nº 30, Avenida Vasco da Gama (que hoje se chama Vila Colombina) nº 30 - Vasco da Gama, Salvador, Bahia.
Na época da fundação, os dois irmãos de esteira receberam de Sinhá Maria Nenem os cargos de Tata Kimbanda Kambambe e Tata Nludi ia Mungongo. Manoel Ciriaco de Jesus fez muitas lideranças de várias casas, como Emiliana (Bogum), Mãe Menininha do Gantois, Ile Agbaalá (Amoreiras), onde obteve cargos.
Tata Nlundi Ia Mungongo, Ciriaco, é considerado até hoje, um Tata Ecumênico, nas nações de candomblé. Teve cargo no terreiro gege do Bogun, quando a Doné era Dona Emiliana e mantinha boas relações com o Terreiro do Gantois da então Mãe Escolástica e depois Mãe Meninha; teve o cargo de Sarapembe, no ilê Agboula, em Amoreiras - Itaparica. Quando iniciava Muzenza sempre tinha a participação de pessoas de todos estes terreiros. Viveu no Rio de Janeiro onde também funcionou uma casa do Tumba Junçara em Vila dos Teles.

No Rio de Janeiro, fundou uma casa de culto em Vilar dos Teles (não se sabe a data da fundação nem a relação de pessoas iniciadas). No seu primeiro barco foram iniciados 6 azenza (plural de muzenza), obteve a ajuda do pessoal do BOGUM. Os três primeiros azenza ( Angorênce-RICARDINO, Nanasi e Jijau) foram iniciados segundo os fundamentos do BOGUM e os demais segundo os fundamentos do TUMBA JUNÇARA. 
Com a morte de Manoel Rodrigues do Nascimento (Kambambe), que assumira sozinho a direção do Tumba Junçara, Manoel Ciriaco de Jesus (Nludi ia Mungongo) assumiu a direção até sua morte, a qual ocorreu em 4 de dezembro de 1965.
Manoel Ciriaco de Jesus (Nludi ia Mungongo ) nasceu em 8 de agosto de 1892, falecendo aos 72 anos, cinco meses e seis dias. 
Com sua morte, assumiu a direção do Tumba Junçara a Sra. Maria José de Jesus (Deré Lubidí), que foi responsável pelo ritual denominado Ntambi (ritual fúnebre) de Ciriaco, juntamente com o sr. Narciso Oliveira (Tata Senzala) e o sr. Nilton Marofá. Deré Lubidí era Mam'etu Riá N'Kisi do Ntumbensara, hoje situado à Rua Alto do Genipapeiro - Plataforma, Salvador, Bahia, e de responsabilidade do sr. Antonio Messias (Kajaungongo).
Em 13 de dezembro de 1965, após o Ntambi, Maria José de Jesus (Deré Lubidí) passa a direção do Ntumbensara para Benedito Duarte (Tata Nzambango) e Gregório da Cruz (Tata Lemboracimbe), e em ato secreto é empossada Mam'etu Riá N'Kisi do Tumba Junçara.
Maria José de Jesus (Deré Lubidí) nasceu no dia 18 de setembro de 1900. Foi iniciada na nação Angola aos 23 de junho de 1920 por Manoel Rodrigues do Nascimento e teve Manoel Ciriaco de Jesus como pai pequeno, e em 25 de dezembro de 1920 recebeu a denominação de Deré Lubidí.
Em 1924,recebeu o cargo de Kota Kamukenge (auxiliar da mãe criadeira) do Tumba Junsara, e em 1932, o cargo de Mam'etu Riá N'Kisi. Em 1953 fundou o Ntumbensara, na Rua José Pititinga nº 10 - Cosme de Farias, Salvador, Bahia, que em 18 de outubro de 1964 foi transferido para o Alto do Genipapeiro.

Com o falecimento de Deré Lubidí, assumiu a direção do Tumba Junsara a Sra. Iraildes Maria da Cunha (Mesoeji), nascida aos 26 de junho de 1953 e iniciada em 15 de novembro de 1953, permanecendo no cargo até o presente momento.
Nlundi Ia Mungongo foi iniciado sendo filho do Mukixi Kavungo e Nzazi, Nlundi ia Mungongo significa, Nlundi = Guardião, Mungongo = Mundo, então seria Guardião do Mundo.