terça-feira, 29 de setembro de 2009

MITO DA CRIAÇÃO YORUBA


Obatalá

Segundo a concepção yoruba , todo o processo de existência se desenvolve no plano físico – o aiye – e no sobrenatural – o orun.

Tudo o que se manifesta no aiye tem a sua pré-existencia no orun. Tudo o que existe no plano material possui o seu doble no Orun.
Dentro da tradição yoruba, a existência dinâmica se deve à manifestação de uma força que se denomina Ase. Sem Ase não haveria possibilidade de existência e realização, pois dele decorre todo o processo vital, como essência e forma. Tanto as divindades como toda entidade animada estão impregnadas de Ase.
Como força vital, Ase é plantado, cultivado, renovado e compartilhado. Como toda energia no Universo manifestado, Ase é gasto e renovado. Receber Ase significa incorporar as representações matérias e simbólicas que representam os princípios vitais de tudo que tem existência no aiye como reflexo do orun.
Ase , como força, é neutro, mas detém qualidades e caraterísticas dos elementos que contém e veicula. Ase é a energia contida numa grande variedade de substâncias representativas dos reinos animal, vegetal e mineral, que se propõe movimentar.
Os elementos portadores de ase podem ser agrupados em três categorias, chamadas “sangues” – porque o sangue é o veículo energético por excelência:
Sangue vermelho
Sangue branco
Sangue negro



Todas as cores encontradas na natureza vinculam-se, em última instância, a uma das cores primordiais vermelha ( amarelo, laranja) ou negra (verde, azul, lilás, cinzento). O amarelo é, portanto, uma variedade do vermelho, como o azul e o verde são variações do negro.
O sangue vermelho compreende:



No reino animal – todo tipo de sangue, humano e animal
No reino vegetal – azeite de dendê, ossun, mel
No reino mineral – cobre, bronze, ouro

O sangue branco compreende:
No reino animal – o plasma do igbin, o sêmen, a saliva, o hálito, as secreções, o marfim, os ossos
No reino vegetal – a água, o álcool contido nas bebidas brancas, a manteiga de ori, o inhame
No reino mineral - efun, sal, prata, chumbo, conchas



O sangue negro compreende:
No reino animal – as cinzas dos animais
No reino vegetal – a terra, sementes, o sumo das folhas , o waji
No reino mineral – o carvão, o ferro, as pedras



Alguns lugares, objetos ou partes do corpo humano podem ser impregnados de ase: a língua, o coração, as vísceras, os órgãos genitais, os dentes e ossos, assim como também as raízes, árvores, sementes, as pedras e cristais, os rios, o mar, as florestas e o fogo.
A prática da religião yoruba consiste em atuação através da manipulação dos ase branco, vermelho e negro.
Como dogma, baseia-se na fé numa Divindade Absoluta – Olodumare, na crença na existência e na sobrevivência da alma como sopro divino – emi, nas conseqüências das ações humanas – ewo, e na Lei moral ditada pela consciência de cada um, que permeia a vida cotidiana – ifa aya.

A criação do Planeta Terra

Segundo os Itan (mitos), corpo da tradição oral que norteia todas as crenças e procedimentos da religião yoruba, Olodumare convocou Obatala / Orisa nla para elaborar o planeta Terra dentro da dimensão física.
Durante a caminhada, Obatala encontrou Esu, que indagou sobre oferendas que deveriam ser feitas para a consecução do trabalho. Obatala não deu importância ao fato e, sedento, extrapolou no consumo de bebida alcoólica. Conseqüentemente, caiu em sono profundo e foi suplantado por Oduduwa, que, tomando os elementos necessários, saiu para efetuar a tarefa da criação da Terra.
O local onde o trabalho teve início denominou-se Ife (aquilo que é amplo) . Segundo a tradição, daí proveio o nome da cidade sagrada de Ile Ife.



Oduduwa

Segundo a tradição de alguns clãs yorubas, Oduduwa teria sido um herói proveniente de reinos do oriente que atravessou todo o Egito, chegando ao local onde viria a ser fundada a cidade de Ile Ife.
Ali encontrou a população local, os Igbo, cujo rei era Obatala. Logo encontrou oposição por parte de Oreluere, ancestral guardião, partidário de Obatala. Esta oposição política à investida de Oduduwa fez nascer a Sociedade Secreta Ogboni, presevadora da justiça e dos ideais implantados ns primeiras instituições da Terra.
Em território yoruba há controvérsia sobre a figura de Oduduwa, visto tanto como divindade masculina, como feminina, associada à antiga tradição das deusas da fertilidade.
A controvérsia de mitos disputando entre Obatala e Oduduwa a criação da Terra revela dois momentos distintos que se complementam na memória política da civilização yoruba. Por uma lado, o mito da criação do planeta Terra e por outro, a incursão de povos estrangeiros que ali se mesclaram.
Disto resultou que, embora rendam, fìsicamente, tributo à ancestralidade de Oduduwa, reconhecem em Obatala – já intitulado Orisa nla, o Grande Orisa – a divindade regente do planeta Terra.



Outros itan já trazem a seguinte versão sobre a criação da Terra:

“Munido de uma concha com terra, uma galinha e um pombo, Obatala jogou a terra sobre a imensidão das águas que cobriam o planeta e, em seguida, enviou a galinha e o pombo para espalhar a terra.
Tarefa cumprida, Obatala informou a Olodumare, que enviou agemo, o camaleão, à fim de conferir o trabalho.
Da primeira vez, agemo informou que a terra ainda não estava suficientemente seca para a missão pretendida. Na segunda inspeção, comunicou que tudo estava à contento”.
De toda forma, tendo sido privado de cumprir a missão de criar a Terra, tornando-a habitável no plano físico - ou complementando a obra da criação - Obatala convocou Oreluere para trazer e fazer encarnar os seres que já aguardavam no Orun para concretizar a sua existência material.
Fato inconteste é que , por fim, Obatala recebeu a incumbência de criar as características físicas dos corpos que deveriam abrigar os habitantes humanos do planeta.
Com barro e água, Obatala confeccionou os corpos, aguardando que Olodumare complementasse com o emi – o sopro da vida que os animaria.
Segundo os mitos, no início orun e aiye eram mundos interligados, até que houve uma ruptura – relatada através de várias versões, que, no entanto mantém a constante de que o humano transgrediu contra o Poder Supremo e uma barreira se levantou entre os dois mundos.



O privilégio desta livre comunicação foi cortado, sendo substituído pelo oráculo, legado por Orunmila.



Texto Oluwo Willian de Almeida

CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO A TRADIÇÃO BANTU


Texto:Tata Cassuté



Nzambi Npungu


Nzambi Npungu (deus poderoso) criou o mundo e tudo que nele existe, criou também uma mulher para ser sua esposa e para que por seu intermédio, pudesse ter descendência humana a fim de que esta povoasse a terra e dominasse todos os animais selvagens por ele criado. Ela se chamaria então Ná Kalunga, em virtude da filha que iria dar a luz se chamar Kalunga. Quando Kalunga atingiu a puberdade Nzambi decidiu sair para mostrar a Kalunga tudo que tinha criado e após 3 meses retornaria. Na viagem logo ao anoitecer Nzambi construiu uma Kubata (palhoça) com apenas uma cama, se recusando a dormir com o pai, Kalunga corre chorando. 


Nzambi para convence-la a manda voltar para não ser devorada pelas feras. Voltou então e dormiu com seu pai toda viagem. Quando retornaram Ná Kalunga viu que sua filha estava grávida, enraivecida com o fato se enforcou em uma arvore perante Nzambi e Kalunga. 


Nzambi nada fez para impedir, pelo contrário a achando indigna de continuar a ser sua esposa, não compreendendo os desígnios para povoar o mundo que ele tinha criado então amaldiçoou e a transformou num espírito maligno a quem deu o nome de Mulungi Mujimo (ventre ruim da primeira mãe que existiu na terra). 


Nzambi passou a viver com Kalunga que passou a se chamar também Ndala Karitanga e com isso a segunda divindade. 


Um dia Ndala Karitanga passou a sonhar com sua mãe a insultando, dizendo que iria devora-la. 


Nzambi a tranquilizou dizendo que aquela que foi sua mãe agora era um espírito mau que estava apenas pedindo comida. Nzambi fez um montículo de terra na porta da Kubata e pediu para Ndala Karitanga buscar um animal para o sacrifício e para que a mesma disesse ao mesmo tempo, (minha mãe acabo de vir chorar-te, agora não voltes a ter comigo outra vez, porque se volto a ver-te, vou prender-te) (mam é nzanga kudila ni malamba kindala kana uiza kukala ni kuami akamúkua,nda o kudila o kujibisa), com o tempo Kalunga ou Ndala Karitanga deu a luz a Nkuku-a-Lunga (inteligente), passando este a ser a terceira pessoa da trindade divina. Quando cresceu Nzambi lhe deu o poder da adivinhação, Nzambi ordenou que se case com Kalunga (para se tornar pai de todas as tribos bantu) e concebeu 2 filhos primeiro masculino Sá Mufu segundo feminino Ná Mufu. 


Nzambi ordenou que Sá Mufu casasse com sua mãe e Ná Mufu com seu pai informando-os que depois daquelas uniões as seguintes se fizessem só entre primos. Destas uniões nasceram do sexo masculino - Kitembu-a-Banganga, Ndundu, Ngonga Umbanda, Kanongena, Kambuji e outros. Do sexo feminino - Mujumbu, Ndumba au Tembu, Samba kalunga, Kasai, Lueji, Mukita e outras. Nzambi os ensinou a se multiplicar e a lutar contra doenças e feitiços que os seus descendentes viessem a possuir. Após deixarem a vida terrena cada um dentro da sua atribuição iria supervisionar o mundo que ele havia criado. Nzambi se despediu e levando um cão que sempre o acompanhava, se dirigiu para Sanzala Kasembe Diá Nazambi (aldeia encantada de deus) onde recompensa os bons e castiga os maus. 


Naquela altura as rochas estavam moles por terem sido feitas recentemente, e até hoje no nordeste de Angola se pode ver as pegadas na rocha de Nzambi e ao lado do seu cão (segundo a tradição existem pegadas por toda a áfrica), comprovação feita pela seção de arqueologia e pré história do museu de Dundo - Angola (que são originais e não forjadas pelo homem) segundo as tradições a morada de Nzambi fica entre os rios (Luembe e Kasai) junto a nascente do Nbanze.






A ÁRVORE QUE NÃO TINHA MEDO DO CÉU


A ÁRVORE QUE NÃO TINHA MEDO DO CÉU


O Céu não foi sempre alto assim, nem a floresta tão bonita e cheia de vida.
     No começo, o Céu ficava muito perto da Terra e pesava sobre ela como se fosse uma grande tampa, de tal modo que as árvores só conseguiam crescer para os lados. Então seus galhos ficavam uns por cima dos outros, suas folhas varriam o chão tristemente, seus brotos se amarrotavam e secavam...
     Era assim desde o começo dos tempos - e seria até hoje se uma sumaúma, cansada de viver apertada, não tivesse forçado seu destino.
     "Quem sabe se não há mais espaço do outro lado do teto do mundo?", sonhava ela.
     Firmando bem sua copa, a árvore tentou furar um buraco e então - mas que prodígio! - o Céu recuou alguns metros! Era o que bastava para que a valente sumaúma se endireitasse em todo o seu tamanho e passasse lá para cima, para aspirar o ar das alturas.
     Espantadas ao verem que se afastava o tirano que as oprimia desde sempre, as outras árvores aproveitaram para se sacudir e se esticar, lançando seus galhos para o alto. Os troncos se firmaram, as raízes ancoraram majestosamente no solo, os brotos atrofiados se desdobraram, embriagados de felicidade, e deixaram assim nascer milhares de folhas. Em volta da sumaúna, em pouco tempo a Terra era uma vasta floresta virgem, que finalmente começava a respirar.
     Enquanto isso, do outro lado do Céu, um jovem casal de órfãos avançava cautelosamente pelas grandes pradarias celestes. Ao avistar o que tanto procuravam, ficaram imóveis. Um lagarto grande , preguiçoso, tomava sol estendido sobre uma nuvem. O caçador ergueu sua azagaia, enquanto sua companheira punha uma flecha no arco. Consultaram-se com um olhar e fizeram pontaria... O lagarto deu um salto e rolou sobre si mesmo, no instante em que os dois projéteis fendiam o ar. Os órfãos não acreditaram no que viam: não apenas tinham errado o alvo, mas seus tiros haviam desaparecido num buraco! Esquecendo a presa, aproximaram-se da abertura...
     Debaixo do assoalho do Céu, um estranho mar verde ondulava a perder de vista. Olhando mais de perto, descobriram a flecha e a lança fincadas no meio daquele oceano esquisito. Não era um mar líquido. O que seria então?
     - E se nós descêssemos? - sugeriu a moça, fascinada.
     Não precisou dizer duas vezes. Era isso mesmo o que ele queria. Pousou o pé num galho da sumaúma, para testar se era firme, e depois estendeu os braços para a companheira, a fim de ajudá-la. De galho em galho, penetraram assim no coração daquele reino verde, até pisarem em terra firme. Durante todo o dia, exploraram cada recanto da floresta, maravilhados com sua beleza e com o frescor que nela reinava. A mesma idéia lhes ocorreu, ao mesmo tempo: por que não se mudavam para viver ali embaixo?
     O entusiasmo deles diminuiu quando, depois de muitas horas de buscas inúteis, tiveram de se render às evidências: não havia viv'alma naquele lugar... Nem um animal nos ocos, nem ao menos um inseto! Um silêncio mortal planava sobre a floresta desabitada.
     Muito desapontados, os órfãos se sentaram num tronco de árvore para pensar. Mesmo que eles se alimentassem apenas de frutas e bagas, morreriam de tédio e solidão. E como começavam a ter fome, a moça de repente se lembrou de que tinha no bolso uma espiga de migo celeste. Ia dividi-la ao meio, mas mudou de idéia e a cortou em três pedaços. Deu um ao companheiro, guardou o outro para si e plantou o último na beirada do bosque. Talvez surgisse um campo de milho daquela terra semeada, num sinal de que pudessem ficar lá embaixo.
     Enquanto as primeiras folhinhas do pé de milho apontavam timidamente em busca da luz, a sumaúna continuava a crescer, empurrando o Céu, lá nas alturas. Até que chegou um momento em que o Céu se cansou e não quis mais chegar para trás. Curvou-se todo para resistir ao ataque daquela insolente... mas a árvore acabou conseguindo transpassá-lo e sair do outro lado.
     Foi assim que uma copa gloriosa e triunfante irrompeu bem no meio da pradaria do céu - para grande alegria dos animais que lá viviam e que vieram correndo se abrigar dentro dela. Até que enfim, aparecia um lugar fresco e sombreado!
     Porém, mal tinham se metido pelo meio da folhagem, quando o Céu resolveu de uma só vez se afastar para bem longe da sumaúma, indo parar no lugar onde está até hoje.
     Abandonados, sentindo-se presos numa armadilha, os animais não tiveram outro remédio: trataram de descer, de qualquer jeito, pelo tronco da sumaúma e foram viver na floresta. Os que não conseguiram, nem sabiam voar, tiveram de esperar que os órfãos fossem buscá-los, um a um.
     Foi assim que o Céu  mudou o mundo todo, graças a uma árvore que não tinha medo do Céu.

Texto de Franck Jouve
Tradução de Ana Maria Machado
Pesquisa Ekedi Rovena

MITO DA CRIAÇÃO AFRICANO






A ÁRVORE DA VIDA




     Naquele tempo - e faz tempo que ninguém sabe quando foi e nunca soube - não havia floresta, apenas colinas e planaltos a perder de vista, e um rio que atravessava estas terras desoladas. Perto do rio, onde a terra era branca, vermelha e preta, erguia-se a casa de Khmvum, o Criador de todas as coisas.
     Foi lá que Mbere e Nkwa foram encontrá-lo um belo dia, para lhe suplicar que criasse uma grande floresta...
     - Khmvum Bali, tu que dás a vida, bem que podia nos dar uma floresta, povoada por milhares de árvores... - pediu Mbere, com o coração cheio de esperança.
     - Khmvum Kka, tu que és o mais forte entre os fortes, por favor, nos dê uma floresta povoada por milhares de animais... - pediu Nkwa, com o coração cheio de sonhos.
     Khmvum ouviu em silêncio, e depois alisou a barba, olhando firme para eles, com seus olhos escuros como a noite.
     - E por que os meus filhos pigmeus estão querendo isso?
     - Nós somos tão pequeninos... Os menores dos menores... - começou Mbere. - Podíamos nos esconder na sombra das árvores...
     - E colados aos troncos enormes - continuou Nkwa - podíamos escapar dos nossos inimigos gigantes...
     - Os gigantes receberam a força, na divisão, mas vou dar algo muito melhor aos pigmeus...
     E o Criador ergueu a mão.
     - Dou a vocês a coisa vermelha, o fogo, para vocês não terem mais frio. E dou os animais que caminham, que pulam, que voam, que nadam, para que jamais a fome entre na barriga de vocês. E lhes dou todas as árvores, como abrigo e como amigas. Vocês serão os senhores da floresta e, no reino dela, os pigmeus estarão em casa, livres.
     Mbere e Nkwa ouviam as palavras de Khmvum boquiabertos, com a impressão de estarem vivendo um sonho. Eles, os menores entre os homens, iam se tornar os reis da floresta!
     Ardendo de impaciência e devorados pela curiosidade, viram o Criador entrar em casa e voltar em seguida, trazendo uma árvore minúscula, que acabara de se formar.
     - Esta aqui é Tii, a ancestral da floresta. É a guardiã da coisa vermelha que esquenta, que cozinha e que ilumina.
     E Khvum lhes ensinou a fazer o fogo nascer, esfregando dois pedaços de pau. Depois, plantou a arvorezinha na margem de três cores e foi se sentar, com os braços cruzados.
     - Só isso? - perguntou Mbere, pensando que uma única árvore, mesmo se crescesse muito, não era uma floresta.
     - Só isso? - repetiu Nkwa, pensando que os animais não nasciam em árvores.
     O Todo-Poderoso tinha fechado os olhos.
     - Depois da noite, o dia. Depois de uma nuvem, outra nuvem. Depois de uma árvore, outra árvore...
     Os dois pigmeus não perguntaram mais nada. Curvados, com a testa apoiada no chão, rezavam para Khmvum, quando um barulho estranho estranho os fez levantar a cabeça.
     Bem ali, diante de seus olhos, Tii começava a crescer com uma velocidade prodigiosa.
     Em pouco tempo, seu tronco estava tão grande que seis pigmeus não bastariam para rodeá-lo com os braços. O sol do meio-dia desaparecera por trás da folhagem espessa que já enchia de sombra as duas margens do rio. E a árvore continuava crescendo.
     Logo que a envergadura de seus galhos se estendeu pelo quatro cantos do horizonte, Khmvum Vali, aquele que dá a vida, aproximou-se e tocou a árvore com a palma da mão.
     Tii tremeu com o choque e fez cair sobre a planície um dilúvio de grãos. Mbere e Nkwa caíram de joelhos, maravilhados. Num instante, cada grão dava vida a uma nova árvore. Onde antes não havia nada, nascia agora um mundo ao redor deles, uma floresta profunda, que crescia a olhos vistos!
     Depois, Khmvum Kka, o mais forte entre os fortes, sacudiu com as mãos o tronco da grande ancestral e as folhas começaram a cair de uma a uma.
     Mbere e Nkwa assistiram então, fascinados, ao nascimento do mundo animal: assim que uma folha tocava o solo, começava a se arrastar, a saltar, a andar ... e ia crescendo e se transformando em serpente, em macaco, em elefante... As que ficavam dando voltas no ar logo viravam pássaros de todo tipo, e as que caíam no rio tornavam-se peixes, tartarugas, crocodilos... E toda a vida da floresta nasceu da árvore Tii.


Texto de Franck Jouve
Tradução de Ana Maria Machado
Pesquisa Ekedi Rovena

domingo, 27 de setembro de 2009

YEMANJÁ - A MÃE SAGRADA




Yemanjá é a mãe sagrada, a mulher que dá origem à humanidade, a mãe do mundo. Yemanjá incorpora todos os valores da mulher, mas torna-se sagrada ao assumir o papel de mãe, principalmente quando admitimos que o conceito de mãe, definido pela cultura, é muito mais complexo do que se supõe. Mãe não é simplesmente, a mulher que pare, a que cria os filhos, que alimenta e dá carinho, mas é a mulher sacralizada, aquela que une os filhos pelos laços da consangüinidade e que, ao mesmo tempo, os separa pelas regras que a cultura, às vezes mais forte do que o sangue.
Yemanjá é a imagem do próprio oceano, imenso e infinito a separar os continente, a separar a humanidade, mas também o elo fundamental que uniu a África e o Novo Mundo na mesma fé, a fé nos Orixás.
Yemanjá é a mãe do mundo, mundo que ela mesma povoou e alimentou. Afigura da Grande Mãe está presente em todas as culturas bem como os aspectos sagrados que a caracterizam, dos seios de Yemanjá jorraram todos os rios do mundo, o sustento da humanidade. Ela é a mãe de todas as cabeças, a mestra, que nos oferece equilíbrio e discernimento, Yemanjá faz com que cada cabeça, isto é, cada ser humano seja único, diferente, mas por outro lado, nos iguala na intensidade de seu amor, pois não pode mensurar o amor de uma mãe, apenas senti-lo, forte, intenso, imenso. Apesar de no Brasil Iemanjá ser cultuada nas águas salgadas, sua origem é um rio que corre para o mar. Inclusive, todas as sua saudações oriquis e cantigas remetem a essa origem. A saudação Odò-Iyá, por exemplo, significa, mãe do rio, á a saudação Eérú-Iyá faz alusão às espumas formadas no encontro das águas do rio com as águas do mar, sendo esse um dos locais de culto a Iemanjá.
Yemanjá a Deusa mais festejada, a mais amada, reverenciar Yemanjá é ter a certeza de possuir uma mãe protetora sempre atenta aos passos de seus filhos.

Texto: Rafael de Oxossi

sábado, 26 de setembro de 2009

IYABAS



Ìyáàgba - Ìyãgba - mãe adulta, matrona, matriarca

Ìyà - mãe
Àgba - adulto, pessoa mais velha, maturidade.

Iabás, são todos os orixás femininos ligados à água, numa clara referência à concepção, à gestação, à vida!
Na mitologia dos orixás, que guarda o saber ancestral dos povos de origem iorubá trazido pelas religiões africanas, a mulher está representada pelas iabás, os orixás femininos. Sua gênese e histórias estão contadas nos mitos que os escravos vindos da África para cá, transmitiram oralmente.
O saber das Iabás cria outras formas de organização da vida e do mundo.
As Iabás representam a feminilidade e, por conhecer a memória dos corpos, transmitem suas histórias, afetos e conflitos.
Elas guardam em seu ventre um poder que ninguém, senão elas mesmas, possuem. O segredo de todas as mulheres:
o poder de gerar e dar vida a outros seres. Exercem também o poder da criação, conquista, multiplicação, luta e transformação.
O elemento água é comum a todas as iabás. O estado no qual ela se apresenta na natureza caracteriza o
temperamento de cada uma delas. A água fertiliza a terra, a faz produtiva, penetra nas plantas e corre nas suas veias como sangue. A água proporciona que as plantas dêem seus frutos que alimentam o homem. Transforma a terra seca em terra criativa e criadeira. Não apenas lhe dá vida, mas preserva-a, uma vez que o homem foi gestado na água do ventre da mãe. O sangue que corre em suas veias é composto de grande quantidade de água.
Assim como a água, o amor em suas diferentes manifestações, alimenta a alma, dá-lhe vida, preserva-a e transformaa.
Como um elemento fluido, é condutor poderoso da alma humana para muitas direções, bem como está presente em todos os momentos da vida como elemento de vital importância.
O estudo da mitologia das iabás pode trazer uma reflexão sobre como viver e experimentar os sentimentos nos diferentes momentos da vida que, tal qual a água, apresentam vários estados. É possível à mulher viver e cultuar suas deusas interiores, as iabás, da quais descendem e da quais herdam a feminilidade em suas variadas nuanças e cores, sabendo que seu eu é sagrado e deve ser vivido e cultuado na sua totalidade.
Nas iabás um pouco de todas as mulheres e muito das várias mulheres que habitam uma mulher!
 
Omi Odò Iyá! Mãe da água que corre!
Omi Odò Ìyá! Sirìre! Mãe da água que corre! Abra-me seu caminho!
Ora Yèyé ô! Vossa benevolência mãezinha!
Eparrei Lo Oya! Tua á vida, Oyá!
Epayèyô, Iansã! Mãe da vida, Iansã!
Exó! Obá Sire! Gentileza! Obá, prepare o caminho!
Riró! Encontro a doçura!
Salubá! Encontrei-te, velha rabujenta!

Texto : Rosany de Yemonja

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

QUALIDADES DE YEMANJÁ



No Brasil, segundo P. Verger, são conhecidos os seguintes avatares ou qualidades de Iemanjá: Assabá, que é manca e está sempre fiando algodão; Assessu, muito voluntariosa e respeitável; Euá ; Iamassê, mãe de Xangô; Iemowo, mulher de Oxalá; Olossá, que é o nome de uma lagoa africana; e Ogunté, casada com Ogum Alabedé.



Em Cuba, orixá da maternidade por excelência, Iemanjá (Yemayá) é cultuada, segundo N. Bolívar Aróstegui, nos seguintes camiños: Awoyó; Akuara; Okuté; Konlá; Asesú; Mayalewo; Okotó; Lokún Nipá; Alará Magwá Onoboyé; Oguegué, Awoyó Olodé; Ye Ilé Ye Lodo; Ayabá Ti Gbé Ibú Omi; Atará Magbá Anibodé Iyá; Iyamí Awoyómayé Lewó; Yalodde; Awó Samá; Yembó.



No Haiti, associam-se a esse grande orixá feminino os loás (guias) Grande Erzili, Maitresse Erzili, Agoué, Grand Erzilié, Erzilié Freda. E na República Dominicana, Metre Silí e Agué Toroyo.



Em Trinidad-Tobago, nossa Mãe Iemanjá recebe o nome de Emanjah ou Amanjah e tem como correspondentes, Ajajá e Mahadoo.



Texto: Nei Lopes





São 16 as qualidades, e por possuírem características tão próprias, há quem chegue a considerar que se trata de orixás individuais (independentes) das outras qualidades. Aqui, no entanto, e por não haver concenso quanto a esta questão, e muito estudo e pesquisa ser ainda necessário, vamos encarar como qualidades de um único orixá, tal como fazemos com todos os outros.



Yemanjá Asdgba ou Soba: É a mais velha, manca de uma perna devido a uma luta com Exu, rabugenta, e feiticeira, fala de costas, gosta de fiar seu cristal. Comanda as caçadas mais profundas do oceano, tem afinidade com Nanã, Ayra, Oxalufan e Orunmilá . Veste branco e prata. Nesta qualidade, Yemanjá é perigosíssima, sábia e muito voluntariosa. Usa no tornozelo uma corrente de prata. Numa briga com Exú, ela teve sua perna ferida, por isso suas yaôs quase se arrastam em sala, numa primeira manifestação, depois mostram toda sua dança. Seu olhar é irresistível e seu ar é altaneiro. Foi mulher de Orunmilá, e Ifá sempre acata sua palavra e em honra a tal hierárquica entidade, num xirê de Sobá, sempre entra um Oxalá.Para ouvir seus fiéis costuma ficar de costas, carrega em uma das mãos um abebé espelhado e na outra uma estrela do mar. Consagrada com azeite doce e pitadas de mel.
 e sua energia é a espuma branca do mar. Suas amarrações jamais podem ser desatadas. É a senhora do algodão, todos os seus assentamentos são feitos no algodão. Suas filhas costumam ser videntes ou tem o dom da intuição. 


Yemanjá Akurá: Vive nas espumas do mar, aparece vestida com lodo do mar e coberta de algas marinhas. Muito rica e pouco vaidosa. Adora carneiro. Come com Nanã.



Yemanjá Ataramogba ou Iyáku: Nessa forma ela está no colo de seu pai Olokun Vive na espuma da ressaca da maré.



Yemanjá Ayio: Muito velha. Veste sete anáguas para se proteger. Vive no mar e descansa nas lagoas. Come com Oxum e Nanã.



Yemanjá Iya Masemale ou Iamasse: É a mãe de Xangô e quem cuidou de Oxumarê. Esposa de Oranian e muito festejada durante as festas consagradas a seu filho Xangô. As suas contas são branco leitosas, rajadas de vermelho e azul.



Yemanjá Iyemoyo, Awoyó; Yemuo; Yá Ori ou Iemowo: É uma das mais velha, possui ligação com Oxalá, o seu fundamento está no ori, representa a vida, pode curar doenças da cabeça. Veste branco e cristal.



Yemanjá Konla: O seu mito conta que ela afoga os pescadores.



Yemanjá Maleleo ou Maiyelewo: Esta Yemanjá vive no meio do oceano no lugar onde se encontram as sete correntes oceânicas.



Yemanjá Odo: Tem aproximação com Oxum, e vive na água doce sendo muito feminina e vaidosa.



Yemanjá Ogunté: Considerada a nova guerreira, dona da espada, esposa de Ogum ferreiro (Alagbedé) e mãe de Ogum Akorô e Oxóssi. O seu nome significa aquela que contém Ogum. Vive perto das praias, no encontro das águas com as pedras. Traz na cintura um facão e todas as ferramentas de Ogum. Veste branco; azul marinho, cristal, ou verde e branco.



Yemanjá Olossá ou Bosá: Come com Oxum e Nanã. Veste verde-clara e suas contas são branco cristal. É a Yemanjá mais velha da terra de Egbado.



Yemanjá Oyo: Benéfica, muito feminina, saudada na cerimónia do Padê, veste de branco, rosa e azul claro.



Yemanjá Sessu, Sesu, Yasessu ou Susure: Ligada à gestação. Voluntariosa e respeitável, mensageira de Olokun, o deus do mar. Vive nas águas sujas do mar e é muito esquecida e lenta. Come com Obaluaiyê e Ogum. Além do próprio assentamento, tem que se assentar Oxum e Obaluaiyê. Veste branco, verde água e suas contas branco cristal.



Yemanjá Yinaé ou Malelé: Aquela que os filhos sempre serão peixes. Também conhecida como Marabô, mora nas águas mais profundas. É a sereia, ligada à reprodução dos peixes; vem sempre a beira do mar apanhar as suas oferendas; está ligada a Oxalá e Exú.



ANGOLA



Kaiaia, Inaia, Mikaia, Zinza, Kalunga, Abilunda, Bonigu, Kembo Kibela, Nba, Kuanza,Kaitumba,Aruka, Kaiala, Panda, Mucunã, Kaiere, Nbo Kaiana, Mameto Kaiatumba, Maie Danda, Kaiari, Kassinga, Aioca, Kaiare, Arruca, Narrari, Rodalunda, Mucanã, Kaia, Kianda,Ngamikaia, Nboto, Nba sitanga,Bonigu, Nba Kuanza, Nbo Kaiana

YEMANJÁ NO BATUQUE

Mãe da maioria dos Orixás é considerada a dona da maternidade, do casamento e família e Mamãe Universal, este Orixá reina nas águas do mar e tudo que está relacionado a ele, peixes, crustáceos, estrelas, algas, vegetais e outros, a Iemanjá pertence.

Com certeza não existiria outro elemento da natureza para representar e ser o habitat deste Orixá, como o mar. O mar é lindo, fascinante e belo, porém na maioria das vezes severo e perigoso quando não respeitado ou usufruído da maneira correta, características diretamente relacionadas com a Grande Mãe.

Saudação: Omio dô!
Dia da Semana: Sexta-feira
Número: 08 e seus múltiplos
Cor: azul claro, azul forte ou incolor, dependendo da característica da Mãe
Guia: toda da mesma cor, o tom do azul ou se for incolor varia com a característica da Mãe
Oferenda: canjica branca e cocada branca
Adjuntós: Iemanjá Bocí com Ogum Adiolá, com Xangô Agandjú, com Odé, com Ossanha e com Oxalá Dacum, Iemanjá Bomí com Oxalá Bocum ou Oxalá de Orumiláia, Nanã Burukun com Oxalá Bocum
Ferramentas: todos adornos femininos em prata, peixe, leque, caramujos, barco, âncora, leme, conchas, lua, moedas e búzios
Ave: Galinha branca
Quatro pés: ovelha
Sincretismo:
Iemanjá Bocí e Iemanjá Bomí: Nossa Senhora dos Navegantes
Nanã Burukun: Sant’ana

Gostaria de salientar que as características, animais e ferramentas podem obter uma pequena diferença conforme cada Nação, assim como os adjuntós e sincretismo, estas diferenças podem ser manifestadas, no jogo de búzios, como peculiaridades de cada Orixá





quarta-feira, 23 de setembro de 2009

YEMANJÁ - Aspectos







Orixá da harmonia em família, é considerada a Rainha dos mares e a mãe dos Orixás. Veste-se de azul e branco ou verde claro, portando seu Abebê (espelho-leque)decorado com uma sereia ou uma concha. Seu dia é Sábado e sua saudação é "Odô iyá!". Seus filhos, são autoritários, persistentes, preocupados, responsáveis e decididos. Amigos, protetores, faladores e não suportam a solidão. As mulheres, se comportam como super mães. Quando a segurança dos filhos e da família está em jogo, são agressivos e até traiçoeiros.

Aspectos Gerais

Dia: Sábado
Data: 02 de fevereiro
Metal: Prata e Prateados.
Pedra: Água marinha, cristal.
Cor: Branco, cristal, azul e rosa
Comida: Ebô de milho branco e camarão seco, manjar branco com leite de coco e açúcar, acaçá, peixe de água salgada, bolo de arroz e mamão.
Símbolo: Abebé prateado.
Elementos: águas doces que correm para o mar, águas do mar
Região da África: Egbà e Abeokuta
Folhas: pata-de-vaca, umbaúba, mentrasto
Domínios: maternidade (educação), saúde mental e psicológica
Saudação: Erù-Iyá, Odó-Iyá


Orígem e História

No Brasil é muito venerada e seu culto tornou-se quase independente do CANDOMBLÉ. É representada como uma sereia de longos cabelos pretos. Rege a maternidade, é mãe dos peixes que representam fecundidade. Seu dia é sábado. Nas grandes "obrigações", são oferecidos cabra branca, pata ou galinha branca. Gosta muito de flores e é costume oferecer-lhe de quatro a sete rosas brancas abertas, que são jogadas ao mar para agradecimento. Sua cor é o branco com azul. Usa um ADÉ com franjas de miçangas que esconde o rosto. Leva na mão o ABÉBÊ - leque ritual de metal prateado de forma circular, com uma sereia recortada no centro.


YEMANJÁ por presidir a formação da individualidade, que como sabemos está na cabeça, está presente em todos os rituais, especialmente o BORI.


É a rainha de todas as águas do mundo, seja dos rios, seja do mar. Seu nome deriva da expressão YéYé Omó Ejá, que significa, mãe cujo filhos são peixes. Na África era cultuada pelos egbá, nação Iorubá da região de Ifé e Ibadan onde se encontra o rio Yemojá. Esse povo se tranferiu para a região de Abeokutá, levando consigo os objetos sagrados da deusa, e foram depositados no rio Ogum, o qual, diga-se de passagem, não tem nada a ver com o Orixá Ogum, apesar de no Brasil Yemojá ser cultuada nas águas salgadas, sua orígem é de um rio que corre para o mar. Inclusive todas as suas saudações, orikís e cantigas remetem a essa orígem, Odó Iyà por exemplo, significa mãe do rio, já a saudação Erù Iyà faz alusão às espumas formadas do encontro das águas do rio com as águas do mar, sendo esse um dos locais de culto a Yemonjá.

Yemonjá é a mãe de todos os filhos, mãe de todo mundo. É ela quem sustenta a humanidade e, por isso, os órgãos que a relacionam à maternidade, ou seja, sua vulva e seus seios chorosos, são sagrados.

Yemanjá que se estende na amplidão,
Aiyabá que vive na água funda,
Faz a mata virar estrada,
Bebe cachaça na cabaça,
Permanece plena em presença do rei.

Yemanjá se vira quando vem a ventania,
Gira e rodopia em volta da vila.
Yemanjá descontente destrói pontes.
Come na casa, come no rio...

Mar, dono do mundo,
Que será qualquer pessoa.
Velha dona do mar.
Fêmea flauta, acorda em acordes na casa do rei,
Descansa qualquer um em qualquer terra.
Cá na terra, cala a flor d'àgua, fala...


Yemanjá é o espelho do mundo, que reflete todas as diferenças, pois a mãe é sempre um espelho para o filho, um exemplo de conduta. Ela é a mãe que orienta, que mostra os caminhos, que educa e sabe sobre tudo, explorar as potencialidades que estão dentro de cada um, como fez com os guerreiros de Olofin, mostrando o quanto eram bons em seus ofícios, mas dizendo ao mesmo tempo, que a guerra maior é a que travamos contra nós mesmos.

Yemanjá foi violentada por seu próprio filho, Orugan; Dessa relação incestuosa nasceram diversos Orixás e de seus seios rasgados jorraram todos os rios do mundo. Yemanjá acabou se desmanchando em suas próprias lágrimas e trasformando-se num rio que correu em direção ao oceano. Por tanto não é por acaso que as lágrimas e o mar tem o mesmo sabor.

Dissimulada e ardilosa, Yemanjá faz uso da chantagem afetiva para manter os filhos sempre perto de sí. É considerada a mãe da maioría dos Orixás de Orígem Iorubá. É o tipo de mãe que quer os filhos sempre por perto, que tem uma palavra de carinho, um conselho, um alívio psicológico. Quando os perde é capaz de desequilibrar-se completamente.

Yemanjá é a mãe que não faz distinção dos seus filhos, sejam como forem, tenham ou não saído de seu ventre. Quando humildemente criou, com todo amor e carinho, aquele menino cheio de chagas, fez irromper um grande guerreiro. Yemanjá criou Omulu, o filho do senhor, o rei da terra, o próprio SOL.

Texto: Tina

YEMANJÁ - CARACTERISTICAS E ATRIBUIÇÕES


Deusa da nação de Egbé, nação esta Iorubá onde existe o rio Yemojá (Yemanjá). No Brasil, rainha das águas e mares. Orixá muito respeitada e cultuada é tida como mãe de quase todos os Orixás Iorubanos, enquanto a maternidade dos Orixás Daomeanos é atribuída a Nanã. Por isso à ela também pertence a fecundidade. É protetora dos pescadores e jangadeiros.




“Comparada com as outras divindades do panteão africano, Yemanjá é uma figura extremamente simples. Ela é uma das figuras mais conhecidas nos cultos brasileiros, com o nome sempre bem divulgado pela imprensa, pois suas festas anuais sempre movimentam um grande número de iniciados e simpatizantes, tanto da Umbanda como do Candomblé. “


Pelo sincretismo, porém, muita água rolou. Os jesuítas portugueses, tentando forçar a aculturação dos africanos e a aceitação, por parte deles, dos rituais e mitos católicos, procuraram fazer casamentos entre santos cristãos e Orixás africanos, buscando pontos em comum nos mitos.


Para Yemanjá foi reservado o lugar de Nossa Senhora, sendo, então, artificialmente mais importante que as outras divindades femininas, o que foi assimilado em parte por muitos ramos da Umbanda.


Mesmo assim, não se nega o fato de sua popularidade ser imensa, não só por tudo isso, mas pelo caráter, de tolerância, aceitação e carinho. É uma das rainhas das águas, sendo as duas salgadas: as águas provocadas pelo choro da mãe que sofre pela vida de seus filhos, que os vê se afastarem de seu abrigo, tomando rumos independentes; e o mar, sua morada, local onde costuma receber os presentes e oferendas dos devotos.


São extremamente concorridas suas festas. É tradicional no Rio de Janeiro, em Santos (litoral de São Paulo) e nas praias de Porto Alegre a oferta ao mar de presentes a este Orixá, atirados à morada da deusa, tanto na data específica de suas festas, como na passagem do ano. São comuns no reveillon as tendas de Umbanda na praia, onde acontecem rituais e iniciados incorporam caboclos e pretos-velhos, atendendo a qualquer pessoa que se interesse.


Apesar dos preceitos tradicionais relacionarem tanto Oxum como Yemanjá à função da maternidade, pode estabelecer-se uma boa distinção entre esse conceitos. As duas Orixás não rivalizam (Yemanjá praticamente não rivaliza com ninguém, enquanto Oxum é famosa por suas pendências amorosas que a colocaram contra Iansã e Obá). Cada uma domina a maternidade num momento diferente.


A majestade dos mares, senhora dos oceanos, sereia sagrada, Yemanjá é a rainha das águas salgadas, regente absoluta dos lares, protetora da família. Chamada também de Deusa das Pérolas, é aquela que apara a cabeça dos bebês no momento de nascimento.


Numa Casa de Santo, Yemanjá atua dando sentido ao grupo, à comunidade ali reunida e transformando essa convivência num ato familiar; criando raízes e dependência; proporcionando sentimento de irmão para irmão em pessoas que há bem pouco tempo não se conheciam; proporcionando também o sentimento de pai para filho ou de mãe para filho e vice-versa, nos casos de relacionamento dos Babalorixás (Pais no Santo) ou Ialorixás (Mães no Santo) com os Filhos no Santo. A necessidade de saber se aquele que amamos estão bem, a dor pela preocupação, é uma regência de Yemanjá, que não vai deixar morrer dentro de nós o sentido de amor ao próximo, principalmente em se tratando de um filho, filha, pai, mãe, outro parente ou amigo muito querido. É a preocupação e o desejo de ver aquele que amamos a salvo, sem problemas, é a manutenção da harmonia do lar.


É ela que proporcionará boa pesca nos mares, regendo os seres aquáticos e provendo o alimento vindo do seu reino. É ela quem controla as marés, é a praia em ressaca, é a onda do mar, é o maremoto. Protege a vida marinha. Junta-se ao orixá Oxalá complementando-o como o Princípio Gerador Feminino.


CARACTERÍSTICAS


Cor Cristal. (Em algumas casas: Branco, azul claro. também verde claro e rosa claro)


Fio de Contas Contas e Missangas de cristal. Firmas cristal.


Ervas Colônia, Pata de Vaca, Embaúba, Abebê, Jarrinha, Golfo, Rama de Leite (Em algumas casas: aguapé, lágrima de nossa, araçá da praia, flor de laranjeira, guabiroba, jasmim, jasmim de cabo, jequitibá rosa, malva branca, marianinha - trapoeraba azul, musgo marinho, nenúfar, rosa branca, folha de leite)


Símbolo Lua minguante, ondas, peixes.


Pontos da Natureza Mar.


Flores Rosas brancas, palmas brancas, angélicas, orquídeas, crisântemos brancos.


Essências Jasmim, Rosa Branca, Orquídea, Crisântemo.


Pedras Pérola, Água Marinha, Lápis-Lazúli, Calcedônia, Turquesa.


Metal Prata.


Saúde Psiquismo, Sistema Nervoso.


Planeta Lua.


Dia da Semana Sábado.


Elemento Água


Chakra Frontal


Saudação Odô iyá, Odô Fiaba


Bebida Água Mineral ou Champanhe


Animais Peixes, Cabra Branca, Pata ou Galinha branca.


Comidas Peixe, Camarão, Canjica, Arroz, Manjar; Mamão.


Numero 4


Data Comemorativa 15 de agosto (Em algumas casas: 2 de fevereiro, em 8 de dezembro)


Sincretismo Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora dos Navegantes


Incompatibilidades Poeira, Sapo


Qualidades Iemowo, Iamassê, Iewa, Olossa, Ogunté assabá, Assessu, Sobá, Tuman, Ataramogba, Masemale, Awoió, Kayala, Marabô, Inaiê, Aynu, Susure, Iyaku, Acurá, Maialeuó, Conlá.


ATRIBUIÇÕES


Essa força da natureza também tem papel muito importante em nossas vidas, pois é ela que rege nossos lares, nossas casas. É ela que dá o sentido da família às pessoas que vivem debaixo de um mesmo teto. Ela é a geradora do sentimento de amor ao seu ente querido, que vai dar sentido e personalidade ao grupo formado por pai, mãe e filhos tornando-os coesos. Rege as uniões, os aniversários, as festas de casamento, todas as comemorações familiares. É o sentido da união por laços consangüíneos ou não.


AS CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE YEMANJÁ


Pelo fato de Yemanjá ser a Criação, sua filha normalmente tem um tipo muito maternal. Aquela que transmite a todos a bondade, confiança, grande conselheira. É mãe. Sempre tem os braços abertos para acolher junto de si todos aqueles que a procuram. A porta de sua casa sempre está aberta para todos, e gosta de tutelar pessoas. Tipo a grande mãe. Aquela mulher amorosa que sempre junta os filhos dos outros com os seus. O homem filho de Yemanjá carrega o mesmo temperamento: é o protetor. Cuida de seus tutelados com muito amor. Geralmente é calmo e tranqüilo, exceto quando sente-se ameaçado na perda de seus filhos, isto porque não divide isto com ninguém. É sempre discreto e de muito bom gosto. Veste-se com muito capricho. É franco e não admite a mentira. Normalmente fica zangado quando ofendido e o que tem como ajuntó o orixá Ogum, torna-se muito agressivo e radical. Diferente é quando o ajuntó é Oxóssi, aí sim, é pessoa calma, tranqüila, e sempre reage com muita tolerância. O maior defeito do filho de Yemanjá é o ciúme. É extremamente ciumento com tudo que é seu, principalmente das coisas que estão sob sua guarda. Gostam de viver num ambiente confortável e, mesmo quando pobres, pode-se notar uma certa sofisticação em suas casas, se comparadas com as demais da comunidade de que fazem parte. Apreciam o luxo, as jóias caras e os tecidos vistosos e bons perfumes. Entretanto, não possuem a mesma vaidade coquete de Oxum, sempre apresentando uma idade maior, mais responsáveis e decididos do que os filhos da Oxum. A força e a determinação fazem parte de suas características básicas, assim como o sentido de amizade, sempre cercada de algum formalismo. Apesar do gosto pelo luxo, não são pessoas ambiciosas nem obcecadas pela própria carreira, detendo-se mais no dia a dia, sem grandes planos para atividades a longo prazo. Pela importância que dá a retidão e à hierarquia, Yemanjá não tolera mentira e a traição. Assim sendo, seus filhos demoram a confiar em alguém, e quando finalmente passam a aceitar uma pessoa no seu verdadeiro círculo de amigos, deixam de ter restrições, aceitando-a completamente e defendendo-a, seja nos erros como nos acertos, tendo grande capacidade de perdoar as pequenas falhas humanas. Não esquecem uma ofensa ou traição, sendo raramente esta mágoa esquecida. Um filho de Yemanjá pode tornar-se rancoroso, remoendo questões antigas por anos e anos sem esquecê-las jamais. Fisicamente, existe uma tendência para a formação de uma figura cheia de corpo, um olhar calmo, dotada de irresistível fascínio (o canto da sereia). Enquanto os filhos de Oxum são diplomatas e sinuosos, os de Yemanjá se mostram mais diretos. São capazes de fazer chantagens emocionais, mas nunca diabólicas. A força e a determinação fazem parte de seus caracteres básicos, assim como o sentido da amizade e do companheirismo.


São pessoas que não gostam de viver sozinhas, sentem falta da tribo, inconsciente ancestral, e costumam, por isso casar ou associar-se cedo. Não apreciam as viagens, detestam os hotéis, preferindo casas onde rapidamente possam repetir os mecanismos e os quase ritos que fazem do cotidiano.


Todos esses dados nos apresentam uma figura um pouco rígida, refratária a mudanças, apreciadora do cotidiano. Ao mesmo tempo, indicam alguém doce, carinhoso, sentimentalmente envolvente e com grande capacidade de empatia com os problemas e sentimentos dos outros. Mas nem tudo são qualidades em Yemanjá, como em nenhum Orixá. Seu caráter pode levar o filho desse Orixá a ter uma tendência a tentar concertar a vida dos que o cercam - o destino de todos estariam sob sua responsabilidade. Gostam de testar as pessoas.


COZINHA RITUALÍSTICA


Canjica branca


Canjica branca cozida, leite de coco. Colocar a canjica em tigela de louça branca, despejando mel por cima, e uvas brancas, se desejar.


Canjica Cozida


Refogada com azeite doce, cebola e camarão seco.


Manjar do Céu


Leite, maisena, leite de coco, açúcar


Sagu com leite de coco


Colocar o sagu de molho em água pura de modo a inchar, depois de inchado, retirar a água e levar ao fogo com leite de coco, de modo a fazer um mingau bem grosso, colocar em tigela de louça branca.
 
 
Texto: Rodrigo Kravetz