terça-feira, 24 de maio de 2011

XAPANÃ/SAKPATA/NSUMBO - PARTE V - NSUMBO/KAVIUNGO



Nsumbo/Kaviungo (Obaluaye)

Nkisi que nos aponta um principio e um fim, capaz de captar todas as influencias negativas de casas e pessoas, ídolo da desintegração.
Na  nação angola , é a ele que chamamos para levar o muenga (iniciado) até o iungo (terra), a ele também pedimos na catulagem, e na hora de maior fundamento lá está ele , aquele que carrega os maiores segredos da nação...
É filho de ZUMBARANDÁ e LEMBARAGANGA. Irmão adotivo de MUKUMBE e ALUVAIÁ e irmão carnal de TEMPO e ANGORO.
A varíola é a punição que ele aplica aos maus feitores. Quando morre uma pessoa, KAVIUNGO senta-se em cima do corpo , reivindicando seus direitos. Está relacionado a terra, os troncos das árvores e os ramos. Transporta o AXÉ preto, vermelho e branco, seu maior segredo é com os espíritos contidos na terra, que são seus irmãos e de quem ele é o maior símbolo. Assim como ZUMBARANDÁ, ele é o patrono dos CAURIS. Ele usa em suas vestimentas um capuz de palha da costa, chamado AXÓ YIKÓ, que lhe foi dado por seu irmão GONGOBIRA , para que cobrisse as chagas e, principalmente, seus olhos, pois, contêm todo o brilho do sol e quem olhasse perderia a visão. O AXÓ YIKÓ é um material de grande significado, pois, participa de todos os rituais ligados a morte. A presença de YIKÓ é indispensável, em todas as situações que se maneja com o sobrenatural. O YIKÓ é a fibra da ráfia, obtida de palmas novas de YIGYOGÓRO, árvore sagrada, que produz a palha obtida dos talos do olho da palmeira, quando nova, antes delas abrirem-se e curvarem-se.
O fato de cobrir-se com YIKÓ e ornar-se com búzios e cabaças, mostra que estamos na presença de um Òrixá ligado, diretamente, com a morte, cujas faculdades destruidoras são de difícil controle.
Segundo as lendas, ele é irmão mais velho de KAMBARANGUANGE. KAMBARANGUANGE destronou um KAVIUNGO velho e assumiu seu lugar, por esta razão existe a guerra entre os dois Òrixás. Pessoas de KAVIUNGO não pegam no XÈRE nem participam da roda de KAMBARANGUANGE. No KUKUANA não entra AMALÁ e na comida de KAMBARANGUANGE não entra DEBURUS.
KAVIUNGO usa miçangas pretas e brancas ou pretas, vermelhas e brancas, dependendo da qualidade, amarelo, preto e marrom.
Sendo OMOLÚ o dono da terra, é ele quem nos dá todo o tipo de alimentos, inclusive, a ele pertencem todos os grãos.
Os KISSICARANGOMBE tem que ter respeito pelos atabaques, pois, KAVIUNGO é o dono dos couros. Este nkice é o padrinho de todos os KISSICARONGOMBE. Quando vamos dar comida aos atabaques, damos comida a KAVIUNGO.
A KAVIUNGO pertence o porco, cabrito, frangos, galos carijós, frangos rajados, d'angola, tatu e cágado. Carneiro é sua grande KIZILA. Pega, também, patos pretos e brancos.


QUALIDADES
- TATETO KULAMBA RIA WUNGANA ( Equivalente a SAPONAN no Kétu )
É o mais antigo. É proibido falar seu nome. Na África quando se fala seu nome, coloca-se mel na boca. Come com ALUVAIÁ e tem fundamento nas encruzilhadas. Tem caminhos com GONGOBIRA e é o deus da varíola e das doenças de pele. Era êle quem dizimava nas aldeias. Suas contas são brancas e pretas.
- TATETO KULAMBA RIA TAKUBENANGUANGE ( Equivalente JAGUN ou AJAGUN no Kétu )
Tem caminhos com LEMBARAGANGA. É jovem e guerreiro. Leva na mão uma lança chamada OKÓ. É vingativo, ambicioso, luta para alcançar posição alta sem ver de que maneira. Tem caminhos com MUKUMBE TANGO AVANGO, LEMBÁ, MONAKAIA ( AIRÁ ), ALUVAIÁ e MALEMBÁ. Êle é cultuado no dia 17 de dezembro, veste branco e preto e suas contas são rajadas. O seu cuscuzeiro leva uma seta só, vem dentro de uma bacia com 9 pratinhos brancos de barro. Seu verdadeiro encanto, como dos outros, é o cântaro ( moringa de uma asa só ) . Neste cântaro pôe-se jóias e dinheiro. Êle não come feijão preto. Come miúdos de boi no azeite doce, os outros comem com demdê. Êle é o único que come ÌGBÍN.
- TATETO KULAMBA RIA BELAGUANGE ( Equivalente a AZAUANI no Kétu )
É jovem, veste preto e branco como suas contas. Tem caminhos com TEMPO e ANGORO. Come tatu na praia.
- TATETO KULAMBA RIA KANJANJA.
- TATETO KULAMBA RIA APANANGO.
- TATETO KULAMBA RIA KATULE.
- TATETO KULAMBA RIA KAFUNGE.
 NSUMBU (*) ANGOSSARA
DUNDE SALE (**)
DUNDARÁ (**) MALAIZO
KINGONGO (***)
KAFUNAN KASSUENZO
KAKAWANI
KATEN KATULÈ*
KIMBONGO
KATUIZO(****)* KATURA GONGUÈ * KALELE
KATULEMBARASSIMA* SUMBUNANGUÈ KAFUNGÈ
KATUBELANGUANGE* KAWUNDEN
* Os KATU - cor clara - preto e branco - têm idade - comem com Lembá
(*) Ligado à vida
(**) Os que têm DUN no nome são perigosos.
(***) Ligado à morte como Xapanã
(****) Izo = fogo - ligado a Pambunjila e Kaiangu

Camafunge –Kuquete – Kaviungo – Pokoran – Ndondo – Ingana – Kafunge – Kanjanjá – Burungunço – Nsumbu – Ndundo – Ntoto – Kavungo – Kalungangombe –Ajebelunje – Kingongo – Kuango – Kualanvango – Iungo – Cabalanguanje –Siengo – Apanango – Katulê - Tateto Kisangaria Icungo (Terra)- Burungunça – Kitungo – Kassuenzô – Kissanje – Tateto Kisanga Ria Kalunje Ngombe (Morte) – Kafundegi –Kijenje – Uambo Kitungo –Ndongo – Ancestrais
UNSABA
-Mangerona, canela de velho, alunam, café do mato, balaio de pombo, agapanto lilás, erva moura, beldroega vemelha, gervão roxo, sete sangria, espinheira santa, sabugueiro, crizântemo e bomina.

sábado, 14 de maio de 2011

XAPANÃ/SAKPATA/NSUMBO - PARTE lV - SAKPATA SIMBOLOS

SAKPATÁ

Direito da foto Samuel Abrantes
As cores de contas e roupas usadas por esses Voduns podem variar de acordo com o gosto de cada um. Todos usam roupas feitas de palha da costa sendo umas mais curtas e outras mais compridas. Sakpatá usa todas as cores e o estampado, sempre com a presença das cores escuras. 

Símbolo fortemente ligado a Sakpatá, a palha da costa é a fibra da ráfia, obtida de palmas novas, extraídas de uma palmeira cujo nome científico é Raphia vinifera. No Brasil, recebe o nome de Jupati. A palmeira é considerada a "esteira da Terra". A palha da costa, tendo sua origem na palmeira, ganha o simbolismo universal de ascensão, de regenerescência e da certeza da imortalidade da alma e da ressurreição dos mortos. Um símbolo da alma. Além de proteger a vulnerabilidade do iniciado, sua utilização também é reservada aos deuses ancestrais, numa reafirmação de sua ancestralidade, eternização e transcendência.






Os Sakpatás podem trazer nas mãos o xaxará, ou o bastão, a lança, o illewo ou ainda, uma pequena espada. A maioria deles gostam de manter o rosto coberto pela palha da costa, outros gostam de mostrar o rosto. 










O búzio, simboliza a origem da manifestação, o que é confirmado pela sua relação com as águas e seu desenvolvimento espiralóide a partir de um ponto central. Simboliza as grandes viagens, as grandes evoluções, interiores e exteriores.
Todos gostam muito de usar búzios e xaorôs (guizos). 

É associado as divindades ctonianas, deuses do interior da terra. Por extensão, o búzio simboliza o mundo subterrâneo e suas divindades. 

O chaorô (guizo), tem simbologia aproximada a do sino, sobretudo pela percepção do som. Simboliza o ouvido e aquilo que o ouvido percebe, o som, que é reflexo da vibração primordial. A repercussão do chaorô é o som sutil da revelação, a repercussão do Poder divino na existência. Muitas vezes têm por objetivo fazer perceber o som das leis a serem cumpridas.
Universalmente, tem um poder de exorcismo e de purificação, afasta as influências malignas ou, pelo menos, adverte da sua aproximação. Sem dúvida, simboliza o apelo divino ao estudo da lei, a obediência à palavra divina, sempre uma comunicação entre o céu e a terra, tendo também o poder de entrar em relação com o mundo subterrâneo.



O lakidibá, fio de conta de Sakpatá, é feito do chifre do búfalo. Tem o sentido de eminência, de elevação, símbolo de poder, um emblema divino. Ele evoca o prestígio da força vital, da criação periódica, da vida inesgotável, da 

fecundidade. Devemos lembrar que chifre, em hebraico "querem", quer dizer, ao mesmo tempo, chifre, poder e força. O lakidibá não sugere apenas a potência, é a própria imagem do poder que Sakpatá tem sobre a vida e a morte. Na conjunção do lakidibá e do deus Sakpatá, descobrimos um processo de anexação da potência, da exaltação, da força, das quatro direções do espaço, da ambivalência. Encontramos o lakidibá em duas cores: preto e branco. Ele também contém a bondade, a calma, a força, a capacidade de trabalho e de sacrifício pacífica do chifre do búfalo, de onde origina-se. Rústico, pesado e selvagem, o búfalo é também considerado divindade da morte, um significado de ordem espiritual, um animal sagrado. Na África, o búfalo (assim como o boi), é considerado um animal sagrado, oferecido em sacrifício, ligado a todos os ritos de lavoura e fecundação da 
terra. O lakidibá é entregue ao adepto somente na obrigação de sete anos. 

Presença certa em tudo ligado a Sakpatá, o duburu (pipoca) representaria as doenças de pele eruptivas, cujo aspecto lembra os grãos se abrindo. Jogar o duburu assumi o valor e o aspecto de uma oferenda, destreza e resistência. O ato de jogar se mostra sempre , de modo consciente ou inconsciente, como uma das formas de diálogo do homem com o invisível. Tem por alvo firmar uma atmosfera sagrada e restabelecer a ordem habitual das coisas, é fundamentalmente um símbolo de luta, contra a morte, contra os elementos hostis, contra si mesmo.

Os narrunos (sacrifícios) para esses Voduns devem sempre ser feitos com o sol forte e cada um deles especifica o que querem comer. Isso quer dizer que, não existe uma única maneira de agradá-los. Eles não gostam de barulho de fogos de artifícios. Uma vez por ano, os Kwes fazem um banquete para as Divindades do Panteão de Sakpatá, onde devemos comer, dançar e cantar junto com os Voduns. Os demais Voduns do panteão da terra, sempre são convidados a compartilhar desse banquete. Os jejes acreditam que, com essa cerimônia oferecida a essas divindades, todas as doenças são despachadas do caminho do Kwe e de seus filhos.

Esse banquete é colocado dentro do peji ou do quarto onde mora Sakpatá e os demais Voduns de seu panteão. Toda a comunidade vêm saudar o Deus da varíola e seus descendentes, comer e dançar junto com eles e, ali mesmo, é servido o banquete para todos os presentes. Após essa cerimônia, Sakpatá e os demais Voduns, vestem suas roupas de festa e vão para a Sala (barracão) comemorarem seu grande dia, junto com a comunidade que os aguardam. Quando entram na Sala, todos gritam louvores à eles, dançam e cantam, louvando o Deus da varíola, que traz a cura de todas as doenças.

Suas danças e cânticos lembram sempre os doentes, as doenças e a cura das mesmas. Algumas falam das lutas que esses Voduns enfrentaram com a rejeição das comunidades com sua presença e outras falam das vitórias que tiveram sobre todas as comunidades que a eles vieram pedir ajuda.

Os Sakpatás trabalham muito e têm um interessantíssimo papel nas feituras de Voduns. Do início ao fim de uma ahama (barco de iyawo), eles atuam com rigidez e vigor, mantendo o bom andamento, principalmente dos bons costumes morais e, cobram "feio" caso alguém cometa alguma falha. Eles são, na verdade, as testemunhas de uma feitura. Após a feitura, se um filho negar alguma coisa que tenha sido feita, eles são os primeiros a cobrarem desse vodunci a mentira que ele está dizendo, assim como também cobram a quebra de segredos.

Todas as folhas refrescantes para ferimentos, pertencem a esses Voduns.

Vale alertar que existem Orixás e Inkices também ligados a cura e doenças porém, não são os mesmos deuses que os Voduns da família Dambirá, da nação Jeje. Muitas confusões são feitas e, encontramos várias bibliografias relatando origens, especificações e costumes que nada têm a ver com o Vodum Sakpatá.

XAPANÃ/SAKPATA/NSUMBO - PARTE IIl SAKPATA



Sakpata – é a denominação fon do Vodum do panteão da terra. É o grande Ayi-vodun dos Ewe-fon, por isso intitulado Ayinon (o dono da terra). Considerado filho mais velho de Mawu ele é enfim, o Rei do Mundo, originariamente vodun senhor da varíola e, por extensão, de inúmeras enfermidades contagiosas que deformam o corpo. Todo o povo fon o teme enormemente e o cultua fervorosamente e possui uma grande quantidade de representações, cada uma sendo um aspecto de doenças e infecções. A tradição aponta a origem do culto de Sakpatá na localidade de Kpeyin Vedji, um enclave iorubá dentro do território Mahi a noroeste de Abomei. Desta dupla procedência permanece a curiosidade de que Sakpatá é considerado uma divindade iorubá ("nagô") pelos fon e gun ("jêje") pelos iorubás. 
Para o povo Jeje, Sakpatá foi trazido para o Dahomey, por Agajá, no século XVIII, vindo da cidade de Dassa Zoumé, mais precisamente, da aldeia de Kpeyin Vedji.
Todos os Voduns, pertencentes ao panteão de Sakpatá, são da família Dambirá.
Nesse panteão temos vários Voduns. O mais velho que se tem notícia é TOY AKOSSU, no transe, ele se mantém deitado na azan (esteira). Dizem os mais velhos, que Toy Akossu é o patrono dos cientistas, ele dá à eles inspirações para a descoberta das fórmulas mágicas que curarão as doenças e as pestes. Ele é a própria "doença e cura", como também um excelente conselheiro.
TOY AZONCE é um outro Vodum velho, porém mais novo que Toy Akossu. Seu assentamento fica em local bem isolado do Kwe, sendo proibido tocá-lo. Somente UMA pessoa designada por ele mesmo pode tratar desse assentamento. É Toy Azonce quem sempre faz todas as honras para seu irmão Toy Akossu, quando ele está em terra.
TOY ABROGEVI é um Vodum velho, filho de Toy Akossu, que gosta de comer quiabo com dendê, paçoca de gergelim e fumar cachimbo de barro. Toy Abrogevi gosta muito de Badé e se tornou muito amigo dele. Foi com Badé que aprendeu a comer e a gostar de quiabo.
 São tantos Voduns desse panteão que seria praticamente impossível descrever cada um aqui.
 Esses Voduns são rigorosos no que tange a moral e os bons costumes.
Nunca admitem falhas morais dentro dos kwes e, quem faz essa fiscalização para eles é Ewá, filha de Toy Azonce.
KOHOSSÚ, cujo nome significa "Rei da Lama" é o pai de todos os Sakpatás; 
NYOHWE ANANÚ, dona da água parada que mata de repente é a mãe, e são ambos filhos de Nà Buùku. 
DA ZODJI, envia a disenteria e os vômitos, considerado o mais velho de todos. Ele não tem braços ou pernas e é carregado numa padiola, mas tem o poder da invisibilidade e, apesar do defeito físico, comanda todos os Sakpatás. 
DA LANGAN come a carne das pessoas ainda vivas. 
DA SINJI traz as inchações e tromboses. 
AGLOSSUNTÓ é responsável pelas feridas e chagas que nunca cicatrizam. 
ADOHWAN castiga perfurando os intestinos. 
AVIMADJÉ é o que leva as almas dos que morreram punidos por Sakpatá. 
BOSSU-ZOHON é o grande feiticeiro. 
ALOGBÉ possui cinco braços e é ligado aos tohossú 
ADAN TANYI é filho de Da Zodji, e traz a lepra. 
SUVINENGUÉ um abutre com cabeça humana e é filho de Da Langan. 


Existem várias outras denominações: Agbologbodji, Tonekpó, Gbazu, Ahossú Ganhwa, Kpadadadaligbo (que é fêmea) etc., cujos nomes, atribuições e lugar dentro da "família" varia de região para região.
Uma outra tradição conta que Sakpatá é uma divindade dupla, tanto macho como fêmea. O macho sendo Da Zodji e a fêmea sua irmã Nyohwe Ananu, gêmeos nascidos do primeiro parto da entidade andrógina Mawu-Lissá. 
Sakpatá é cultuado em seus templos sob um aspecto duplo. Possui o aspecto Jeholú ("Rei das Jóias", que seriam as pústulas trazidas pela varíola) que é tratado internamente e não recebe sacrifícios de sangue diretamente, mas é lustrado com uma mistura de sangue e azeite de dendê e envolto por panos. O aspecto Zun-holú ("Rei da Floresta") fica do lado de fora, recebe os sacrifícios de sangue diretamente sobre ele e é coberto por rodilhas de ramos secos da palmeira de ráfia (Raffia vinifera) palha-da-costa, e é um montículo que pode ser mais alto do que um homem. Os sacerdotes e fiéis o tratam como um ente vivo, o reverenciam, abraçam, etc. Zun-holú de tamanhos mais modestos podem ser vistos diante dos hunkpame de outros voduns, sobretudo nos de Heviossô. 
A iniciação de Sakpatá entre os fon consiste em duas partes. Na primeira e mais longa, os neófitos permanecem no hunkpame vários meses submetendo-se a disciplina rígida de silêncios, jejuns, aprendizagem de cânticos e danças rituais e nesta eles são chamados de agamassi. No final desta fase, as famílias juntam dinheiro para realizar um grande ritual, no qual os neofitos morrem simbolicamente e ficam escondidos por três dias dos olhos de todos, e depois são trazidos para fora enrolados em mortalhas e são publicamente "ressucitados" pelo Aklunon (ministro do culto). A partir daí eles recebem seus nomes de iniciação e passam a ser chamados de Anagonu, por causa da acreditada origem nagô do vodun; ou "Azonsi", que em francês se escreve Azonsu.
No antigo Reino do Daomé, o culto de Sakpatá era olhado com suspeita, às vezes banido (e o foi, definitivamente, de Abomei). Uma vodunsi de Sakpatá não pode ser dada como esposa para o rei, e havia sempre a suspeita maior de que seus sacerdotes espalhavam deliberadamente a doença para aumentar seu poder. Mas outra questão importante neste caso é o fato de que Sakpatá abertamente desafia o poder real portando os títulos de Ayinon e Jeholú, que são títulos que o rei também possui.

No Brasil
Na Diáspora, o culto de Sakpatá foi usualmente misturado ao de sua versão iorubá, Obaluaiyê.
No Candomblé Jeje, ele é conhecido como Azonsu ("O" Doença), grafado no Brasil como "Azunsu" ou Ajunsun e Azonwanu (o que tem o cheiro da doença), grafado no Brasil como "Azoani" ou Azauani, sendo este segundo nome também conhecido na Santeria cubana como "Asojano".

XAPANÃ/SAKPATA/NSUMBO - PARTE II - OMOLU/OBALUAYE


A História dos Iorubá em meados do século XVIII, relata que um surto de epidemia da varíola dizimou a população de Abeokuta. Centenas de pessoas morriam todos os dias, metade da população fora atingida. Os governantes locais realizam uma sessão e um certo número de adeptos de Sòpònná foram executados e outros expulsos, e suas casas incendiadas. OMOLULU OROGBO Divindade que se funde ao culto de Sòpònná mas em muitas localidades não se confunde. A região de Kétou, cidade fronteira entre a Nigéria e o Benim, é a única região em todo o território ioruba onde Obalùàiyé eOmolu são considerados, ao que parece, como uma única divindade... Seu templo é separado de sua mãe mítica NãNã Buruku... Com essa mesma característica ele é conhecido no Brasil, onde a influência Kétou é muito grande entre os descendentes de escravos que para lá foram levados. Em Ile Ife não existe culto à Omolu e muitos ali o desconhecem. Contrário na região Mahi, onde seu culto se destinge totalmente de Obalùàiyé.... ao que se sabe, seu culto se originou do Oeste Iorubá...A tradição local da Cidade de Topli, no Togo, Omolulu Orogbo é considerado uma divindade feminina, que saiu das água segurando um sasara – emblema ritualístico e em uma das mãos e um gbada – facão na outra. Este facão é uma representação do crocodilo, animal sagrado entre as divindades dos rios... Em Abeokuta Omolu é considerado um Òrìsà feminino, onde o Culto à Sòpònná esta proibido desde 1884, divide seu templo com NãNã Buruku e a ambas as divindade, quando se oferece sacrifícios de animais não se utilizam de facas... É possível que existam duas divindades com o mesmo nome, um de cada sexo, conforme se verá... Na cidade de Abeokuta, Omolu é chamado de Olù Odò – senhor do riacho (água) e Omolu Òrìsà omi ni – Omolu é uma divindade das águas... Esse riacho é conhecido com Odomolu – o riacho de Omolu e esta localizado em direção ao poente... De suma importância mencionar, que o Templo de NãNã Buruku esta voltado em direção ao poente e neste são realizados as oferendas somente ao por do sol, da mesma forma que se pratica nos Terreiros Tradicionais da Bahia... Na Cidade de Aise, existe em seu templo uma grande lança esculpida, denominada de Oko Omolu, na qual são representados por três personagens superpostos, representando Òsumare, o próprio Omolu e Iroko... Em Dassa Zoumé Omolu é duplo, masculino segurando um facão e feminino segurando um abebe – leque e um irukere – rabo de cavalo... Seu culto foi trazido de Aja Aguna e agregado em Dassa Zoumé na época do Rei Onigbo – quarto soberano de Dassa Zoumé...Nas proximidades de Atakpamé, cidade do Togo onde existe um dos principais templos de NãNã Buruku, em uma aldeia igualmente chamada de Adja Agouna, existe um templo dedicado à Omolu Arawe uma divindade masculina... em outra aldeia da região, conhecida por Gbekon, encontra-se um templo de sua contrapartida feminina, denominada de Omolu Idji Aguna... Nesta região ambos os Omolu são divindades totalmente distintas de Soponná e o sacrifícios de animais à Omolu Arawe e Omolu Idji Aguna são realizados sem que se utilize uma faca para imolar o animal... seus interditos são o vinho de palmeira no que se diferencia de Obalùàiyé onde são ofertado este tipo de vinho...



SASARA OWOO emblema ritualístico mais importante do Culto à Obalùàiyé e Omolu é denominado de Sasara-owo. Trata-se de um atado de nervuras de folhas da palmeira; revestidos de tecidos e palha da costa; ornamentados com uma grande quantidade de búzios, ostentando opulência e as mais diversas contas; onde dentro deste acomoda-se um de seus maiores enigmas, o segredo da vida e da morte, a cura ou a proliferação das doenças, sobretudo as que alteram a temperatura corporal do enfermo. Os feixes dentro do corpo do Sasara representam coletivamente os ancestrais, os mortos contidos na terra. Devem ser confeccionados por um sacerdote altamente qualificado, preparado para manipular representações tão poderosas. Tem a finalidade de controlar os Espíritos da Terra para o seu espaço sagrado, eliminar as energias negativas da comunidade, sobretudo as doenças, proporcionando a longevidade. Nele esta o segredo da vida e da morte, a cura ou a proliferação das doenças, sobretudo as que alteram a temperatura corporal do enfermo. Quando as doenças são liberadas do Sasara, este tem como desígnios divinos ou punição de uma comunidade no intuito de uma renovação de vida. Em algumas linhagens o Sasara de Omolu se diferencia ao utilizado por Obalùàiyé do qual contém um detalhe a mais, a ponta de uma lança em sua extremidade e suas cores são características, o preto e o branco.







Texto: Baba Guido

sexta-feira, 13 de maio de 2011

XAPANÃ/SAKPATA/NSUMBO - PARTE I - XAPANÃ




SÒPÒNNÁ
Uma das quatro principais divindades ligadas diretamente ao Igba Odù Iwa– A Cabaça da Existência dos Odu . Entre os nagô-iorubá Sòpònná é temível e perigoso, divindade das epidemias, sobretudo a varíola, sua maior arma de punição aos malfeitores e aqueles que o desrespeitam. As altas temperaturas corpórea, seguidas de delírios, causados pela infecção das doenças contagiosas, não são mais do que sintomas da ira de Sòpònná contra sua vitima. Quando temos alguma razão para pensar que um enfermo esteja sob a manifestação maléfica de Sòpònná é descrito de Ilègbóná – Varíola; Ìgbóná – Febre ou até mesmo Ilè gbígbóná – Terra quente, ou seja, “a terra aonde o enfermo encontrasse está demasiadamente quente” é a presença do Deus da Varíola e precisa ser apaziguado. Neste caso os iorubás não pronunciam mais o nome Ilè gbígbóná e sim empregam um eufemismo e dizem exatamente o contrário Ilè Tutu – O solo está frio, vertendo água de dentro para fora da casa. Terrivelmente temido, seu nome não deve ser pronunciado, sobre tudo perante aos enfermos, quando invocado é mais indicado usar nomes com expressões adulatórias, como: Obalùàiyé – Rei e Senhor da terra; Olùàiyé – Senhor da terra ouOloòde – Senhor dos espaços abertos. Quando um enfermo padece de qualquer doença contagiosa e se crê que a causa seja Sòpònná os iorubás descrevem a situação em términos de profundo respeito a divindade. Eles dizem Ó n sin Oba – Ele está sob a vontade do Rei; Ilè gbígbóná n bá a jà – A terra quente há posto sua mão sobre ele ou a terra quente o está afetando; Ó gb' ofá ou Ofá bà á – Ele atinge sua vítima como uma flecha ou Ele foi atingido por uma flecha. Sòpònná é descrito comoAlápó – Alguém que maneja o temor e quando um enfermo morre como resultado de sua aflições, usualmente não se diz Ó kú – Ele morreu, se diz Oba mú nló – O reio o levou ou ainda Ilè gbígbóná gbé e ló – A terra quente o levou. Os mitos relatam que em dia de sol escaldante, em especial ao meio-dia, Sòpònná está vagando por todos os lugares e comumente se alerta a não usar o vermelho ao “sol a pino” correndo o risco de insulta-lo, do qual teriam sérias conseqüências. Deve-se ter cuidado, especialmente durante a temporada de seca, de não fazer nada que o ofenda, A sòroó pè léèrùn – Alguem cujo o nome não é propicio se chamar durante a época de seca. Os antigos entendem desta forma porque as maiorias das epidemias de varíola foram constatadas em épocas de seca, além de que os iorubás crêem que Sòpònná esta particularmente ativo em épocas de seca. Sòpònná é considerado feroz e muitas vezes implacável, então não insultá-lo é a melhor prevenção de não ser molestado por uma divindade tão perigosa.Sòpònná é a única divindade de que sua vontade, qualquer que seja sua manifestação, deve ser aceita, não somente com resignação senão com uma manifestação de prazer e gratidão. Por exemplo, os parentes de alguém que morre de varíola não deve se lamentar o mostrar que choram pela morte de um ente querido. Em vez disto eles devem estar alegres e felizes e mostrar que estão amplamente agradecidos pela atitude do Rei da Terra. Assim, Sòpònná é conhecido por Alápadúpé – Alguém que mata e se agradece por isso.

Sob seu absoluto domínio está a crosta terrestre; o solo onde o homem habita, constrói, cultiva e deposita seu cadáver após a morte; ele nutre os homens dando-lhes o milho e outros grãos do solo mas também os pune fazendo com que, através de suas peles, saiam os “grãos” que eles comeram. Filho primogênito de Nã Buku ou mais conhecida no Panteão Iorubá de NãNã Buruku. Seu maior companheiro, um ancestral denominado de Ãle que habita o lado de fora de sua casa; nada o faz sem antes prestar reverencia a ele; seu nome não deve ser pronunciado após o pôr do sol. Na crença iorubá Sòpònná é a “Destruição que surgiu em uma noite” A ecasses de informações sobre a origem do culto o mantém na obscuridade. Isso ocorreu devido ao fato deste culto ser de caráter reservado e em épocas remotas era proibido falar sobre o assunto. Acreditasse que se trata de uma divindade estrangeira, agregada ao Panteão dos Iorubás ou do retorno de origem iorubá longínqua, levadas por uma das inúmeras migrações em direção ao oeste da Nigéria e imigrações ao país vizinho aRepublica Federal do Benim, antigo Dahomé. Ao pouco que se sabe, os antigos iorubás citam que Sòpònná teria vindo do território Fon e outros que tenha retornado a suas terras de origem, o território Iorubá... Na Cidade de Ketou há divergência de opiniões quanto a origem de Sòpònná... alguns acreditam que tenha vindo a Ketou de Dassa Zoumé, segundo alguns, de Adja Popo, segundo outros, de Aise e uma terceira opinião de Holi... Para um melhor esclarecimento, a maioria dos estudiosos afirmam que o Culto ao Deus da Varíola, tenha sido oriundo do Leste Iorubá... Fato este que poderíamos perfeitamente perguntar: Teria Sòpònná imigrado para o antigo Dahomé ou Sakpata imigrado para a antiga Nigéria ?Para um melhor entendimento, deveremos saber que no antigo Dahomé, existe uma divindade no Panteão Ewe Fon, denominada de Sakpata, o Vodun da Varíola... A etnia Ewe Fon e conhecida popularmente no Brasilpelo término Jeje e em Cuba por Arara... Da mesma forma que Soponná seu nome não pode ser pronunciado, seus adeptos o preferem chamá-lo de Ayinon “O dono da terra”... Sakpata pertence a primeira linhagem da família de Nyohwe Ananu umaVodun que possui característica idênticas as de NãNã Buruku... Os nomes mais conhecidos de Sakpata no Novo Mundo são Azontunu e Avimage... Segundo reza a tradição, um grupo expedicionários da região de Savalou que estavam ao norte do antigo Dahomé, encontraram os Kadjanu (nagôs vindos da região de Badagris) emDamé, as margens do rio Wèmé, os quais o seguiram até Savalou, levando com eles sua divindade protetora dos quais denominaram em língua Fon de Sakpata Agbosu... Em Savé, afirma-se que Sòpònná teria vindo do reino de Oyo... Essa remota origemnagô-iorubá é sublinhada pelo fato de que os Vodunsi (iniciados) de Sakpata são denominados Anagonu, que significa forasteiro de onde se originou a corruptela nagô... Em Dassa Zoumé, Soponná é conhecido por Sakpata... Os Sakpatanon grã-sacerdotes do Culto à Sakpata tinham uma grande influência sobre os realeza, porém, os reis jamais tiveram muita estima pelos sacerdotes desse culto... o mesmo culto passou por momentos de aceitação e reprovação; foi restabelecido por várias vezes e em seguida proscrito formalmente, pelo soberanos do reino do Dahomé... da mesma forma que os Oluwo Ipopo, os Sakpatanon foram mortos e muitos expulsos do território do Benim...A Medicina Tradicional de se curar a varíola denominado de Èro ouOògùn Sòpònná era conhecido, entre os iorubás, unicamente pelos sacerdotes deSòpònná, que fizeram dele grande comércio e elevaram a varíola à posição de uma divindade temível. Na qualidade de representantes do “senhor e rei da terra”, os corpos e os bens das vítimas pertenciam de direito aos sacerdotes de Sòpònná. Esses sacerdotes mantinham em suas casas, cabaças com parte do cadáveres da vítima da varíola, tais como um braço ou pé; potes contendo um líquido escuro, feito com a água extraída do cadáver ou da água que serviu para lavar o corpo, enquanto a pessoa estava viva; recipientes com um pó escuro, proveniente das escamações secas, deixadas pela varíola. Essa água ou esse pó eram jogados, durante a noite, na frente da casa das pessoas a quem se quer infectar. Os moradores ao saírem de casa, entravam em contato com os germes. Assim que uma ou mais pessoas da família se contaminasse, a erupção da pele aparece e um sacerdote de Sòpònná é convocado. Durante o tratamento Èbè – súplicas, preces eram constantemente recitadas com a finalidade de propiciar e apaziguar a fúria de Sòpònná. De dez sacerdotes do culto, nove ajudam mais a desenvolver a doença do que interrompê-la. Era de seu interesse agir assim, além de grandes somas que recebem, eles reivindicam todos os bens do doente, caso esse venha a falecer. Esses sacerdotes inescrupulosos, retiravam os cadáveres da casa, mas não o enterravam no bosque com de costume, a não ser joga-los no mato, onde os porcos os comiam e, algumas vezes, os pedaços do corpo eram levados para as aldeias vizinhas, contribuindo para espalhar o mal. Assim os sacerdotes faziam negócios muito lucrativos. Os sacerdotes que procediam de maneira correta, conduzia o enfermo ao templo de Sòpònná e lá os sacerdotes os lavam com areia-de-praia quente e remédios secretos.

continua......

terça-feira, 10 de maio de 2011

EBÓS - OFERENDA DE COMIDAS AOS ORIXÁS/VODUNS/MIKINSI



AS OFERENDAS

....Dentro do culto aos Orixás, o mais importante são as oferendas aos Orixás, que têm por finalidade manter o equilíbrio das relações entre eles e os seres humanos. É através das consultas ao Oráculo de Ifá, que as pessoas, mesmo as não iniciadas, são informadas a respeito das exigências de seus Orixás e principalmente de Exú, relativas às oferendas que desejam receber. Nem sempre estas exigências são estabelecidas pela  relação anteriormente explicada entre o ser humano e seu Orixá de cabeça, muitas das vezes, é um outro Orixá quem se oferece para solucionar um determinado problema ou alguma dificuldade que está sendo vivenciada e, em troca, exige algum tipo de sacrifício em seu louvor. Algumas vezes, pessoas atormentadas pelos mais diversos tipos de dificuldades, recorrem aos préstimos de algum Orixá, oferecendo algum tipo de sacrifício como penhor de sua confiança e de sua fé, da mesma forma que os católicos recorrem aos seus santos, implorando graças e fazendo promessas que, invariavelmente, são pagas somente após a obtenção da graça solicitada. Os sacrifícios oferecidos aos Orixás, são genericamente denominados "ebós" que se dividem em "ejenbale" (sacrifícios com derramamento de sangue) e "adimús" (sacrifícios incruentos).

Os ebós ejenbale, dividem-se em diversos tipos, exigindo sempre o derramamento de sangue de algum tipo de animal que pode ser uma ave, um quadrúpede ou até mesmo um simples caramujo. Dentre os mais conhecidos, destacamos:
Ebó ejé: Oferenda votiva  que tem por finalidade obter determinado favorecimento ou graça de uma Divindade.
Ebó etutu: Sacrifício de apaziguamento. Este tipo de sacrifício é geralmente determinado pelo Oráculo e tem por finalidade acalmar a ira ou o descontentamento de uma entidade qualquer.
Ebó a ye ipin ohun: Sacrifício substitutivo. Tem por finalidade substituir a morte de alguém pela oferenda determinada pelo Oráculo, no Brasil, este sacrifício é vulgarmente conhecido como "ebó de troca".
Ebó ba mi d'iya: Sacrifício que visa atenuar uma punição de morte imposta à uma pessoa por um Orixá ou por um espírito maligno. Neste caso, como no anterior, um carneiro é sacrificado em substituição ao ser humano.
Ebó Ogunkojà: Sacrifício preventivo que pode ser público ou individual. Tem por finalidade evitar qualquer tipo de acontecimento nefasto que ameace a pessoa (individual) ou até mesmo uma cidade ou aldeia (público).
Ebó a d'ibode: Trata-se de um sacrifício propiciatório e preventivo. Este sacrifício é oferecido na fundação de uma casa, aldeia ou cidade e tem por finalidade acalmar os espíritos da terra no local da fundação. Antigamente, este ebó exigia o sacrifício de seres humanos que hoje em dia, foram substituídos por diversos animais. Como podemos observar, o sacrifício de seres humanos era exigido nos primórdios do culto o que, sem dúvida, seria hoje considerado um absurdo, além de configurar-se, seja em qual for a circunstância, em homicídio, selvageria e falta de respeito ao ser humano. Da mesma forma, o derramamento do sangue de animais, só deve ocorrer em situações de extrema necessidade e em casos em que não possam ser substituídos por outras oferendas pois, se os Orixás, acostumados que eram a receberem sacrifícios humanos, concordaram na substituição dos mesmos pelos sacrifícios de animais, é fácil deduzir-se que estes podem também dar lugar a sacrifícios de minerais, vegetais e objetos de seu agrado. Adentramos uma nova era em que todas as formas de vida adquirem sua valorização máxima e a vida dos animais, da mesma forma que a dos seres humanos, há que ser respeitada e preservada ao extremo. É chegada a hora de darmos um basta ao inútil derramamento de sangue que, ao invés de apaziguar os nossos deuses,  só conseguem despertar a sua ira, tornando-os intolerantes e cada dia mais distantes de nós. É necessário que se desperte nos adeptos do Candomblé a consciência do respeito devido a todas as formas de vida animal, cujo sacrifício só pode ser efetivado em casos excepcionalíssimos e quando todos os demais recursos hajam sido esgotados. 
É num itan de Ifá, do Odu Odi Meji, que encontramos a fundamentação para as afirmações anteriormente feitas:
Odi Meji disse: "Metolõfi, por avareza, não quis sacrificar um boi de malhas brancas e a morte veio buscá-lo."  Quando Ifá estava ainda no ventre de sua mãe, pediu que seu pai pegasse um boi malhado de branco e oferecesse em sacrifício, a fim de evitar  que dentro de três anos, uma guerra viesse dizimar o seu reino. Seu pai negligenciou o sacrifício e no dia do nascimento de Ifá, seu pai morreu e sua mãe foi capturada como escrava. Três anos depois, a guerra arrasou o país e Ifá mandou que Ajinoto, a parteira, o encerrasse dentro de uma cabaça, de forma que ninguém o pudesse ver. A parteira foi encarregada também, de avisá-lo logo que alguém passasse por perto, para que ele revelasse ao passante, a causa de seus sofrimentos e os remédios e sacrifícios que resolveriam todos os seus problemas. Tudo ocorreu da forma como Ifá planejara e o homem que passou naquele local, não hesitou em levar para sua casa, a cabaça onde Ifá havia sido encerrado. Para deslumbramento de todos, Ifá, de dentro da cabaça, dava conselhos, receitava medicamentos e resolvia os mais difíceis problemas. Um dia Ifá ordenou que alguém se dirigisse ao mercado onde, pelo preço de quarenta e um caurís, deveria comprar sua mãe que estava sendo vendida junto com outras escravas. "A primeira mulher que for oferecida deve ser comprada, pois esta é minha mãe." Naquela época Ifá costumava aceitar sacrifícios humanos no festival de Fanuwiwa. Quando a escrava adquirida no mercado foi trazida, Ifá ordenou que lhe fosse entregue uma certa quantidade de milho, para que pilasse e transformasse em farinha destinada à preparação o amiwo. Enquanto pilava o milho, a mulher ouvia os fiéis invocando Ifá:  "Orunmilá! Akefoye! Agbo wi dudu hu do fe to!" (Orunmilá! Akefoye! Se teu nome é Ifá, jamais esquecerás de mim!).  Reconhecendo em Ifá o seu próprio filho, a pobre mulher pôs-se a cantar, em voz alta, a saudação que ouvia: 
"Orunmilá! Akefoye! Agbo wi dudu hu do fe to!"
As pessoas contaram a Ifá sobre a mulher que cantava aquela saudação enquanto pilava o milho e Ifá ordenou que ela largasse aquele trabalho e que, no dia seguinte pela manhã, chamasse por ele junto com seus fiéis, para que pudesse mostrar a todos de que forma deveria ser corretamente alimentado. Ordenou ainda, que fosse preparado um akpakpo e dois panos brancos de cabeça denominados  kpokun abuta, proibindo a todos de olharem para aqueles objetos. Como Ifá vivera, até então, fechado dentro de sua cabaça, jamais havia sido visto por ninguém. Quando todos se afastaram Ifá saiu de sua cabaça coberto por um  grande chapéu, vestindo um avental de pérolas e calçando sandálias, indo sentar-se no alto de um tripé de onde gritou:  "Olhem bem, sou eu, Ifá! Ifá que ninguém nunca viu... A mulher que mandei comprar no mercado de escravos deve ser trazida até aqui!"  A mulher foi trazida à sua presença e Ifá mostrou-a a todo mundo dizendo:
"Olhem bem, esta é minha mãe! Quando eu estava no seu ventre determinei que meu pai deveria sacrificar um boi malhado de branco, para evitar malefícios que já estavam previstos.  Mas meu pai não atendeu minha orientação e todo o mal acabou por se concretizar. Tanto tempo se passou e eu comprei esta escrava para ser sacrificada em minha honra. Entretanto não a sacrificarei! Não poderia trair minha própria mãe, mesmo que ela me tenha traído." Dito isto ordenou que cortassem os longos cabelos de sua mãe, que envolvessem sua cabeça com um belo torso branco e que a instalassem sobre a almofada akpakpo. Depois pediu um boi e um cabrito para serem sacrificados. Com a farinha moída por sua mãe mandou preparar um amiwo para ela, que não poderia ser comido em sua presença. Desta forma, assentada sobre um akpakpo, transformou-se ela em Nã, mãe de um rei. Aos jovens que prepararam as carnes do boi e do cabrito, assim como o amiwo, ordenou que fosse dado uma parte de cada coisa, para que comessem depois da cerimônia¹. A velha disse então a seu filho, que sentia-se muito envergonhada, pois não merecia tantas honrarias e que naquele dia iria encontrar-se em Ló (local para onde vão os espíritos dos mortos), com seu finado esposo.
"A partir de hoje, quando fizerem uma cerimônia em minha honra, digam: Nã kuagba! (Nã seja bem vinda!), e virei receber as oferendas." - Disse a mulher. Nã disse ainda, que faria o Sol tornar-se mais brando ou mais quente, comandando-o de cima de seu akpakpo.  A partir de então, realiza-se sempre o ritual de Xe Nã (dar comida à Nã), quando terminam os festivais Fanuwiwa².
Este Itan de Ifá fundamenta a possibilidade de substituição do sacrifício de um ser humano pelo de animais, o que nos leva a concluir a possibilidade da substituição do sacrifício destes por outros tipos de oferendas, partindo da premissa de que o ritual é criado pelo homem e não pelos deuses.......
1 - Depois das cerimônias de Nã, aqueles que preparam os alimentos a ela oferecidos, recebem uma pequena parte destes alimentos, parte esta que recebe o nome de kle ou kele e que só pode ser consumida depois que o Vodun for servido. (Este rito acompanha as cerimônias às divindades nagô sob o nome Atowo e às divindades fon sob o nome de Nudide).  
2 - Itan coletado por Bernard Maupoil na região onde hoje fica a  atual República do Benin e publicado em sua magnífica obra sobre o sistema oracular de Ifá,  ”LA GEOMANCIE À L'ANCIENNE CÔTE DES ESCLAVES”. 

Fonte: C E C A A - Centro de Estudos da Cultura Afro-Americana

Minha conclusão:
Sobre oferendas de comidas aos orixás acredito eu,  que estas oferendas, sacrifícios animal, (não esquecer da mudança de comportamento) são reabastecedores de asé, e a utilização destes simbolismos é a tentativa humana de alcançar a divindade através de si mesma e de seu mundo. Ai eu me pergunto: Qual seria a finalidade real destas oferendas?
1 - para agradecer pela obtenção de um desejo ou pelo atendimento de uma necessidade
2 - para cumprir uma promessa ou juramento sagrado feito a divindade
3 - para prevenir a causa de um sofrimento
4 - para substituir o ofertante pelo animal sacrificial
5 - para dar força, estabilidade e coragem  para atingir o mundo visível e invisível.
6- para homenagear, quando oferecemos algo, uma comida, uma libação, em homenagem à Divindade ou Entidade.
Toda a complexidade ritual que envolve a realização de uma oferenda, rezas, os gestos simbólicos, os elementos utilizados, etc., todos esses elementos são combinados para chamar nossas divindades, fazer uma oferenda é abrir a oportunidade para mudanças positivas, para aumentar a possibilidade de crescimento e o fator humano não deve ser desprezado pois a oferenda e/ou sacrifício mais elevado é o humano - o sacrifício dos pensamentos negativos e de tendências destrutivas; o sacrifício do ego mesquinho ao principio divino do ser. Em assim sendo, todo e qualquer ato sagrado (banhos, ervas, orações, meditações, sangue animal, frutas, flores, comidas cruas ou cozidas, colhidas ou compradas no mercado, seja lá o que for, no meu modo de ver, só são utilizados  para aumentar esta empreitada humana, e não somente  reproduzir um costume ritual.