sábado, 18 de fevereiro de 2012

OXUM/AZIRI/DANDALUNDA - PARTE I - OXUM


......A rainha do candomblé como é chamada por Vialle (2007) é a dona do ouro e da prata e dos mais ricos encantos femininos. Das yabás, os orixás femininos, só Oxum tem os poderes de penetrar no reino de Ifá, o senhor da adivinhação. Somente ela pode jogar os dezesseis búzios divinatórios de Exu. 
.....Para Verger (1981), Oxum é muito bonita, dengosa e vaidosa. Gosta de pano vistoso, marrafas de tartaruga e possui uma grande paixão pelas jóias de cobre. Antigamente, na terra dos iorubás o cobre era um metal muito precioso e todas as mulheres elegantes possuíam jóias pesadas de cobre.
Conhecida como mãe das mães pelos mais tradicionais candomblés do Brasil de rito nagô-kêto, é o orixá relacionado com a beleza, a vaidade e a procriação. 
....Para os nagôs é Oxum; a nação jeje é conhecida como Aziri; em banto, Kissimbi. A divindade da água doce é a mais jovem das mulheres de Xangô.
Também é conhecida em alguns candomblés como a ninfeta próximo de sua fonte. Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora da Conceição. Nos candomblés é festejada no dia 08 de dezembro.
A mãe das mães é o símbolo do poder feminino de procriação. Segundo Verger (1981), “sem Oxum não há filhos” (LIMA apud VERGER, 2007). As mulheres são controladas em sua fecundidade de acordo com o desejo de Oxum. De acordo com as lendas, os Orixás se reuniam na terra para deliberarem suas ações e as mulheres não podiam participar das reuniões. Portanto, Oxum tornou todas as outras mulheres estéreis e impediu que as atividades planejadas pelos orixás chegassem a um resultado satisfatório. Quando os orixás foram se queixar com Olodumaré, ele questionou sobre a não participação de Oxum nas reuniões.
Segundo Olodumaré, todas as atividades não poderiam dar certo sem a presença da fertilidade de Oxum. Quando os orixás convidaram Oxum para participar dos seus empreendimentos, todas as atividades foram realizadas com sucesso e as mulheres voltaram a ser férteis.
Embora seja conhecida como a mãe das mães, Oxum no seu primeiro casamento com Orumilá, o orixá da sabedoria e da advinhação, não teve filhos.
Como presente de núpcias, ganhou dezesseis búzios que são usados pelos sacerdotes de Oxum.
Como Oxum não ficou grávida durante o casamento, de acordo com as tradições africanas isso foi considerado uma desgraça. Então Oxum permitiu que seu marido tivesse filhos o abandonando.
 Depois, Oxum descobre em seu novo esposo Xangô Aieledje que a sua personalidade se completa e foram muito felizes como marido e mulher. Mais mesmo assim Oxum não lhe deu filhos.
Ambos concordaram então, que Oxum deveria voltar ao seu antigo marido para pedir que ele consultasse Ifá para saber o que estava acontecendo.
Orumilá fez com que Oxum fosse transportada ao céu onde escutou a voz de Olodumaré. Oxum teve uma visão onde viu uma multidão de meninos e meninas que corriam em sua direção. Oxum lhes ofereceu doces e ao se despedir retirou gostosuras de um pote que trazia no topo de sua cabeça.
Quando Oxum retornou, chorou muito e contou para Orumilá. Este o parabenizou dizendo que ela estava grávida.
Quando Oxum engravidou, todas as outras mulheres que eram estéreis também engravidaram sendo que nasceram muitas crianças. Ela usava de seus poderes para baixar a febre das crianças e todas as outras mulheres faziam oferendas em seu favor.
Para Lakesin (1991), Oxum ganha o título de Irunmalé Olomowewê, a divindade protetora das crianças, pois na terra ioruba ela curava a febre de todas as crianças sem nenhuma dificuldade. (LIMA apud LAKESIN, 2007, p. 107),
Oxum é adorada como a mãe da água doce. Conquistou poder e sabedoria por meio de seu comportamento sedutor, meigo e cheio de dengo. Essas também são as características dos filhos da Oxum.
Há um rio que tem o seu nome e deságua na Lagoa de Olobá próximo ao Golfo de Guiné, depois do território de Ijexá. Os africanos iorubás fizeram de suas lindas mulheres os mais belos rios da África: Oiá na Nigéria e o Rio Oxum, em Oxogbo, a morada mais bela de Iyabá.
Dessa forma, o toque dos atabaques para a dança no candomblé é denominado Ijexá, pela beleza da mulher faceira que exibe os seus colares e as pulseiras, dançando diante de um espelho, vaidosa, linda e sedutora.

 OXUM: DE MÃE E FILHA FAVORITA A ESPOSA ENCANTADORA

Embora fosse considerada a mãe das mães, Oxum também é a filha favorita de Orixalá e de Iemanjá. Sendo a filha mais nova do casal, alguns mitos apontam à ilegitimidade dessa paternidade.
Orixalá aceitou Oxum como filha adotiva, sendo ela filha de Orumilá com Iemanjá. Foi cercada por muito mimo, até que Xangô se apaixona por ela e invade o palácio, tendo Orumilá que concordar com o casamento. Muito dengosa forçou que Xangô deitasse a seus pés devotando-lhe amor.
Mesmo considerada uma boa mãe, conta-se que Oxum lava primeiramente as suas jóias antes mesmo de lavar os seus filhos. Conforme Segato (2005) alem de Oxum ser uma “filha dócil, boa e atenciosa para com eles também é a amante preferida de Xangô”. (p. 78).
Considerada como a mãe de criação dos santos, em oposição a institucionalização de Iemanjá:
Alguns dizem que ela é mãe legitima de Ibeji, outros dizem que ela é mãe de criação. Alem disso, alguns informantes mencionaram um episodio mítico no qual Oxum se engaja num breve caso homossexual com Iansã. Oxum é deusa sensual, meiga e vaidosa das águas doces e do ouro. Rege os órgãos reprodutores femininos e a sua própria fertilidade. Sua cor é o amarelo. Come galinhas amarelas, patos, galinhas-d’angola, cabras, porcos castrados e gosta de mel e de doces. E assentada em uma pedra amarela e suas oferendas são despachadas em águas ou próximo delas. Santo Católico: Nossa Senhora do Carmo (SEGATO, 2005, p. 78).
Além de filha favorita, Oxum é a esposa encantadora e conquistada por Xangô. Quando Xangô se apaixonou por Oxum, ela primeiramente o recusou. Entretanto, ele tentou violentá-la. Xangô foi impedido por Exu de dominar Oxum sem que ela aceitasse livremente. Xangô trancou Oxum em uma torre muito alta e a manteve como prisioneira obrigando que ela o aceitasse. Quando Exu descobriu o feito, correu para fazer um pedido a Olorum que soprou em Oxum um pó e a transformou em uma pomba libertando-a da torre pela janela.
Oxum foi a segunda mulher de Xangô. A primeira chamava-se Oiá-Iansã e a terceira Obá. Quando Xangô foi pedir Oxum em casamento, ela colocou uma imposição. Disse que somente aceitaria casar se Xangô levasse o pai dela nas costas para que ele pudesse assistir ao casamento. Oxum é a preferida e está sempre atenta para manter-se a mais amada.
Muito apaixonado Xangô prometeu que depois do casamento carregaria o seu pai no pescoço pelo resto da vida. Depois de casados confeccionou com contas vermelhas e contas brancas um colar com as duas misturadas. Colocou no pescoço e mostrou a Oxum dizendo que havia cumprido a promessa. As contas vermelhas seriam de Xangô e as contas brancas de seu pai que carregaria o resto da vida no pescoço. Embora demonstre doçura e encanto, Oxum não tem somente atributos positivos. A rainha do candomblé também possui características negativas em sua personalidade. São Chantagistas, choram para ter a piedade dos outros, dramáticas, matreiras, debochadas, possessivas, exigentes, ciumentas e altamente autoritárias. Costumam palpitar sobre os problemas alheios e adoram fazer criticas.
Oxum para ser a preferida de Xangô usou também de artifícios maquiavélicos. Ela adora enganar Obá chegando a induzí-la a cortar a sua própria orelha para cozinhar e servir para Xangô. Mentiu dizendo ser o prato preferido do marido. Xangô ficou enojado e enfurecido com Obá.
Da mesma forma ela engana Eleguá que, a serviço de Obá para fazer um sacrifício, corta erradamente o rabo do cavalo de Xangô. Todas as vezes que Obá queria agradar o marido ela acabava sendo odiada por ele por conta das mentiras de Oxum.
Por ser a responsável pela irrigação e fecundação da terra, possibilitando o surgimento de uma nova vida, Oxum é freqüentemente evocada para propiciar uma boa colheita e torna-se a esposa ideal. Padroeira dos negociantes e da fecundidade protege o feto e a criança desde a gestação. .....
.......A segunda esposa de Xangô, tendo vivido em outras épocas com Ogum e Oxóssi, possui poderes sobre o ocultismo, a arte da magia e a fertilidade. Na África, Oxum é chamada de Iyalode, o cargo ocupado pela mulher mais importante, mais instruída e a rainha da nação.
Quando Oxum foi a rainha de Oyó, as mulheres que queriam engravidar procuravam Oxum para alcançarem à fertilidade. Oxum é a deusa do ouro e a prata. Os poderes sobre o ocultismo vinham através de um espelho que possuía que lhe mostrava toda a verdade oculta.
Certa vez, sua irmã Iansã, a dona dos raios, pegou o espelho de Oxum e descobriu que era muito mais bonita do que ela. Então, como toda a aldeia ficou sabendo, Oxum ficou muito brava e resolveu dar uma lição em Iansã. Oxum colocou em seu quarto um outro espelho que revelava somente o lado ruim de todas as coisas. Iansã quando viu ficou tão chocada que entrou em uma tristeza profunda que acabou morrendo.
Oxum foi castigada pelos deuses mais velhos quando descobriu a sua vingança. Por esse motivo, Oxum Opará tem em suas mãos um espelho e em outra uma espada que representa Iansã. (VERGER, 1987, p. 85).
Para Segato (2005) além de Oxum exercer uma grande influência no comportamento das pessoas. Ela também rege principalmente o lado teimoso e manhoso, e o espírito maquiavélico que existe em todos nós. O que é colocado em “relevo a capacidade que Oxum tem de cuidar do bem-estar dos outros, de promover o conforto das pessoas que estão ao seu lado” (p. 400).
Em outro sentido, Oxum “é o veneno das palavras", é o modo piegas das pessoas, é a forma "metida", esnobe apresentada principalmente pelo sexo feminino. É o cochicho, o segredinho, a fofoca. Os filhos de Oxum “[...] são faladeiras, gostam de um fuxico, são enxeridos. Eles gostam de “fazer render” (grifo do autor) qualquer assunto” (SEGATO, 2005, p. 213).
Os poderes da divindade vão além dos seus encantos e formosura. Foi de Oxum a responsabilidade atribuída por Olodumaré de religar o céu (orum) e a terra (o aiê).
Os orixás não podiam mais conviver com os humanos e Oxum veio a terra para prepará-los para recebê-los em seus corpos. Entretanto, Oxum é a inventora do candomblé. Através de Oxum os orixás vem a terra dançarem ao som dos atabaques e xequerês.
Juntou as mulheres, banhou-as com ervas, raspou e ordenou as suas cabeças com penas de um pássaro sagrado, enfeitou seus colos com colares e fios coloridos, pulseiras e idés.
Um dos poderes da Oxum é o de persuasão e inteligência. Com esses atributos ela faz com que os outros orixás se curvem ao seu poder. A Oxum Ijumú, que é a rainha de todas as Oxum tem o poder maior e uma ligação com as bruxas Yami-Ajé que lhe faz conquistar a vitória em todas as suas brigas e vinganças.
Muitos músicos e artistas homenageiam até hoje a Rainha do Candomblé em suas manifestações culturais. A MPB é repleta de canções que retratam os poderes da divindade.
Entre os rituais de iniciação do candomblé, as filhas de santo usam uma pena vermelha na testa, que segundo Verger (1987) é em reverencia aos poderes mágicos de Oxum.
Em uma festa de Oxalá, as sacerdotisas dos vários orixás ficaram com inveja da beleza de Oxum. Portanto, puseram um feitiço.
Quando todos se levantaram para saudar Oxalá, ela ficou presa na cadeira e suas roupas ficaram sujas de sangue. Neste momento todos riram e Oxalá ficou zangado.
Oxum ficou muito envergonhada e tentou se esconder, mas nenhum orixá lhe abriu a porta. As manchas de sangue na roupa de Oxum foram transformadas em penas de papagaio.
Quando os outros orixás souberam dessa magia vieram prestar homenagens a Oxum. Então Oxalá lhe deu a proteção das filhas de santo, que durante a iniciação passaram a usar uma pena vermelha na testa. (VERGER, 1987, p. 76) 

Parte do trabalho de Kary Jean Falcão Gonçalves - OXUM, MÃE DA BELEZA: O PODER DA DIVINDADE DE MAIOR POPULARIDADE DO PANTEÃO AFRO-BRASILEIRO - SABER CIENTÍFICO Porto Velho, 2 (1): 1 -14, jan./jun., 2009.  - FACULDADE SÃO LUCAS E SÃO MATEUS – PORTO VELHO-RO www.saolucas.edu.br 


APETRECHOS RITUALISTICOS - PARTE VI - O MEL- OUTRAS CRENÇAS - QUALQUER SEMELHANÇA NÃO É MERA COINCIDÊNCIA



A Deusa, as abelhas e o mel

Em vários países do mediterrâneo foram encontrados vestígios de antigos cultos (3000 a.C.) de uma Deusa das Abelhas, mas sem que sua exata identidade fosse conhecida. Gravações em tábuas votivas das escavações do templo cretense de Phaistos representam a Deusa como uma abelha, com cabelos trançados como serpentes e com um bico de pomba, combinando assim traços característicos de Athena, Ártemis, Afrodite e Medusa. Desenhos nas paredes do palácio de Knossos corroboram para comprovar a existência de uma Deusa das abelhas na antiga Creta minóica.
A Deusa cultuada na Anatólia (Ásia menor, 3500-1750 a.C.) era representada usando uma tiara em forma de colméia; o mel era considerado sagrado e usado para embalsamar os mortos enterrados em posição fetal em vasos chamados pythoi. ”Cair no vaso com mel” era a metáfora usada para morrer e o pythos era o ventre da Deusa na sua manifestação como Pandora, a Doadora, cuja essência sagrada era o mel.Vários mitos descrevem a restauração da vida após a morte com o auxílio do bálsamo de mel da Deusa. Deméter era chamada de Mãe Abelha e no seu festival Thesmophoria, reservado apenas às mulheres, as oferendas (mylloi) eram constituídas de pães de mel e gergelim em forma de órgãos sexuais femininos.
O símbolo de Afrodite do Seu templo em Eryx era um favo de ouro e Suas sacerdotisas eram chamadas Melissas, assim como também as que serviam nos templos de Deméter, Ártemis, Rhea e Cibele, nos cultos da Grécia, Roma e Ásia menor. Essas sacerdotisas exerciam funções oraculares, se alimentavam apenas com pólen e mel e recebiam o dom de falar a verdade da Deusa Abelha, que a sussurrava nos seus ouvidos.
As abelhas eram consagradas à Deusa desde a antiga civilização matrifocal de Çatal Huyuk (Anatólia) e aparecem nos mitos gregos como “pássaros das Musas”, atraídos pelo aroma das flores do qual preparavam o mel, considerado um néctar divino. Acreditava-se que as abelhas eram almas das sacerdotisas que serviram às deusas Afrodite e Deméter, acompanhando a passagem das outras almas entre os mundos.
O nome científico da classe das abelhas – Hymenoptera – que significa “asas de véu” refere-se ao hymen, o véu que ocultava o altar interno nos templos da Deusa, assim como sua contraparte no corpo da mulher, que é a membrana que veda a entrada para o seu santuário íntimo. A defloração era um ato sagrado realizado com a bênção da Deusa no seu aspecto de Hymen, a padroeira da noite de núpcias e da lua de mel, que tinha a duração de um ciclo lunar e menstrual. O noivo podia acessar a fonte de vida tendo relação sexual durante a menstruação da noiva, momento muito sagrado e poderoso.
No tantrismo o mito relata o batismo ritual (Maharutti) do deus Shiva no sangue menstrual da deusa Kali Maya, sua mãe e consorte, obtendo assim virilidade e poder. A combinação de sangue menstrual com mel era considerada antigamente o elixir sagrado da vida, o néctar criado por Afrodite e ingerido pelos seus sacerdotes e adeptos. Afrodite era reverenciada como a Mãe Criadora ancestral, regente da vida e da morte, do amor e da beleza, do tempo e do destino, conforme comprovam seus múltiplos aspectos como Asherah, Astarte, Inanna, Mari, Moira, Marina, Pelagia, Stella Maris, Hymen, Vênus, Urânia.
Na cosmologia nórdica o néctar de inspiração, sabedoria, magia e vida eterna era uma combinação de mel e do “sangue sábio” contido no caldeirão do ventre da Mãe Terra. Distorções patriarcais atribuíram em mitos posteriores a origem deste hidromel ao sacrifício de um deus pouco conhecido, Kvasir, formado do cuspe fermentado dos deuses e de cujo sangue misturado com mel formou-se o “elixir da inspiração” (uma clara analogia e adaptação da sua verdadeira origem, o sangue menstrual). No mito finlandês o heroi Lemmin Kainem, oferecido em sacrifício e enviado para o mundo subterrâneo da Deusa da morte Mana, foi ressuscitado pela sua mãe com a ajuda do mel mágico trazido pela sua protetora espiritual Mehilainem, a Abelha. Antigas seitas cristãs celebravam um rito de amor que incluía a ingestão da mistura de mel com sangue menstrual, para fins de renovação e renascimento.
O mel era valorizado tanto pelo seu aspecto sagrado, quanto por ser nutridor e preservador, como bactericida. Junto com o sal eram os únicos conservantes do mundo antigo e considerados agentes de ressurreição e transmutação. As abelhas eram símbolos do poder feminino da natureza, que criavam este produto doce e mágico e o guardavam em favos com estrutura hexagonal. O hexágono era considerado pela escola Pitagórica uma expressão do espírito de Afrodite (uma dupla deusa tríplice) e as abelhas reverenciadas como criaturas sagradas, que sabiam como formar hexágonos perfeitos. Nas suas práticas espirituais os adeptos de Pitágoras meditavam fixando a mente na estrutura geométrica do triângulo, do hexágono e dos ângulos de 60°, para compreender melhor os mistérios da simetria cósmica.
No folclore, as abelhas eram associadas tanto com a vida, quanto com a morte. Se abandonassem sua colméia, isso era um presságio nefasto para o dono; em caso de morte de alguém da propriedade, as abelhas deviam ser “avisadas” e imploradas para não irem embora, suas colméias sendo viradas depois na direção contrária à casa. Sonhar com um enxame de abelhas era prenúncio de desavenças e azar, mas o mel nos sonhos era um bom augúrio. Na Irlanda as pessoas compartilhavam seus projetos às abelhas por considerá-las mensageiras dos deuses, assegurando assim a prosperidade. Frases como “pergunte às abelhas que elas sabem” ou “use a sabedoria das abelhas” são comuns nas Ilhas Britânicas. A santa católica Gobnait (adaptação cristã de um aspecto da deusa Brigid) salvou sua paróquia de uma invasão segurando uma colméia nas mãos, o enxame de abelhas cercando e cegando os bárbaros.
No seu aspecto transcendental, as abelhas representam imagens da interconexão sutil e milagrosa da vida. A intrincada estrutura hexagonal, que guarda a dourada essência da vida, é uma equivalente da teia invisível da natureza que coordena todas as criaturas e coisas em um padrão harmonioso. O movimento incessante das abelhas para polinizar as flores e extrair seu néctar para ser transformado em mel, é um exemplo para os humanos trabalharem continuamente, para colherem os frutos dos seus esforços e transformá-los em sustentação e comemoração (os zangões são mortos após a dança nupcial com a abelha rainha por serem preguiçosos e comilões!).
Em um selo de ouro encontrado em um túmulo cretense de 4000 anos atrás, a Deusa e Suas sacerdotisas vestidas como abelhas aparecem dançando junto. A Abelha Rainha, cuidada e nutrida por todas as suas súditas, era a representação neolítica da própria Deusa; o zumbido das abelhas era visto como sendo a transmissão da voz da Deusa. O mel tinha um importante papel no ritual do Ano Novo minóico, que começava no solstício de verão, quando a estrela Sirius nascia junto com o Sol, momento mágico que assinalava o início da colheita de mel das colméias escondidas nas florestas e grutas. Fermentado, o mel virava hidromel, bebida sagrada usada em celebrações e rituais.
Os túmulos em Micenas tinham forma de colméias, assim como também era a pedra sagrada do templo oracular de Delfos, omphalos, que representava o umbigo do mundo. Mesmo depois deste templo inicialmente consagrado a Gaia ser dedicado a Apollo, a função orácular era sempre exercida por uma sacerdotisa – Pythia, chamada de Abelha Délfica. As colméias serviram de modelo para vários templos da antiguidade; o templo egípcio da deusa Neith era conhecido com “a casa das abelhas”, o mel servindo como símbolo de proteção e usado na consagração das fundações e no embalsamento dos faraós.
Uma imagem da deusa Maat a representa como abelha com grandes asas e segurando um pote com mel, augúrio do renascimento. A estátua de Ártemis de Éfeso, considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo, tinha inúmeras protuberâncias no seu corpo, cuja natureza não foi elucidada. Uma das teorias as considera seios, daí o nome de Ártemis com mil seios, outras teorias as vêem como frutas de palmeiras, berinjelas, cachos de uvas, ovos de avestruz, bolsas para amuletos ou cornucópias. Mas também podem ser interpretadas como os ovos que a Abelha Rainha deposita diariamente nos favos, Ártemis sendo vista como a representação da Deusa Abelha, cujo dom era gerar continuamente a vida e consagrar a morte como uma etapa que antecedia a ressurreição.
Atualmente bilhões de abelhas estão morrendo no mundo inteiro, sem que seja encontrada uma causa ou explicação, além da evidente e crescente poluição do meio ambiente e a destruição das espécies vegetais. A crise é um alerta global, pois sem abelhas diminuirá cada vez mais a polinização e a humanidade ficará privada de frutas e verduras, aumentando assim as ameaças da fome mundial.
Como mulheres que cultuam e reverenciam a Deusa, precisamos lembrar e refletir sobre a importância – mítica e mágica – do mel e das abelhas, consagrados à Deusa nas Suas várias manifestações das culturas matrifocais. Devemos honrar e invocar as bênçãos da Deusa Abelha com cantos, música, danças, oferendas de mel e orações, pedindo sua clemência para evitar a extinção das Suas súditas no planeta Terra.

 Por Mirella Faur