quarta-feira, 29 de agosto de 2012

IYAWO


Li este texto e resolvi posta-lo. Não estou de forma alguma contestando a autora, só estou aproveitando as colocações dela, para tecer  posicionamentos, MEUS. 

Uma observação: A forma como a autora descreve os tópicos pode parecer em algum momento, deboche ou falta de educação, mas é exatamente desta forma que muitos falam dentro de suas casas. Acredito que ela tentou retratar esta realidade.
Lógico que em todos os lugares temos que seguir regras e critérios mas....., em algumas casas estas regras só pertencem aos noviços. O que diferencia os mais velhos do noviço, é o tempo de iniciação, responsabilidades de mais velhos, responsabilidades de quem exerce cargos. Noviço é noviço, não inferior. A postura de submissão, só devemos aos deuses.


Obs.: Meus comentários em branco


Manual do Bom Iyawo 

autora: Nêga Ju


1- Não retrucar o pai/mãe-de-santo. Você por acaso retruca seus avós? Não, com certeza. Não retrucar faz parte da educação e respeito que temos que ter por qualquer pessoa, principalmente neste caso.

2- Não retrucar seus irmãos mais velhos e egbomis; Você por acaso retruca alguma tia ou tio mais velho? Se me tratar respeitosamente e educadamente não. Se a motivação do "sabão" for pessoal e desrespeitosa, responda sim, mantendo o posicionamento de mais novo, seguindo as normas de respeito e educação. Se for uma questão religiosa, tem que  se respeitar a experiência e não retrucar, desde que a colocação seja com humildade e com o objetivo de orientar. Só porque somos mais velhos, não nos dá o direto de falar mal com ninguém.



3- Caso tenha algo para falar que não esteja concordando, discretamente peça um minuto da atenção do pai/mãe de santo e exponha a situação civilizadamente, sem precisar que a torcida do Flamengo esteja assistindo. Dar um escândalo no meio do barracão não é postura de um filho de santo, e você ainda corre o risco de tomar um fora na frente de todo mundo. ESTA É A REGRA, e assim deve ser em qualquer seguimento de nossa vida. 



4- Quando tiver visita no barracão (egbomis, ekedes, ogãs, zeladores), seja em dia de festa ou em dia corriqueiro, é de bom-tom que os filhos se abaixem para dirigir a palavra ao pai de santo. Detalhe: Só atrapalhar a conversa caso seja EXTREMAMENTE necessário. Deve-se chegar junto à ele, mas não muito, e ficar abaixado esperando que ele pergunte o que deseja. Quando ele perguntar, comece sempre sua frase com “AGÔ”. “Agô, mas blá blá blá…”. Esses são critérios de educação da religião, pois ninguém se abaixa para falar com avô, avó, pai, mãe, chefe, etc. Se alguém estiver conversando, e precisarmos, naquele momento, falar com a pessoa, se aproximar e aguardar a pessoa nos dar atenção, faz parte da educação, mais umas vez, em qualquer segmento de nossa vida.



5- Nunca, jamais, em tempo ou hipótese alguma, seja no seu barracão ou no barracão do alheio, deve-se sentar na mesma altura que o seu pai de santo. Ele já passou por vários sacrifícios para estar sentado confortavelmente ali. Você ainda está no meio do caminho. Portanto, pra que querer sentar aonde você não alcança? Por tradição, respeito e educação. Não concordo com a motivação explicada neste procedimento, pois estamos mostrando com ele que os noviços são inferiores, e não são, são pessoas adultas, que estão começando a trilhar um caminho de aprendizado dentro da religião. Sistema de reinado não faz mais parte da história. O caminho trilhado por um lider, não faz dele melhor que ninguém, o faz mais sábio, com mais experiência, com mais conhecimento, e é isso que lhe da destaque. Sacrifícios todos fazemos. Temos que respeitar nosso líder, por todos esse motivos, da mesma forma que respeitamos os nossos pais.



6- Yawo e abian não bebe nenhum líquido em copo de vidro dentro de seu barracão ou no barracão do alheio. Deve-se esperar o bom e velho copinho de plástico ou então a conhecida DILONGA, BAN ou CANEQUINHA DE ÁGHATA, como você preferir chamar. Copo de vidro só quem tem direito é egbomi, ekede, ogan e zelador. 

7- Yawo e abian não come em prato de vidro ou louça. Apenas em pratinho de plástico ou ághata. Aliás, devemos lembrar que é de boa educação cada filho trazer seu devido pratinho de ághata e sua devida canequinha para seu uso pessoal no barracão. Ah! Garfo? Nem pensar! Colher. Somente ela. Garfo, só com 7 anos de santo feito, ou então sendo ekede, ogã, zelador…...Isso é pra mostrar que eles são inferiores? No tempo da escravidão era o que disponibilizavam para os escravos, pois eram tratados como seres inferiores. Dentro do quarto sagrado, se me disser que é o simbolismo da primitividade da religião que escolhemos, tudo bem, do lado de fora, somos seres dignos de qualquer privilégio que o progresso nos brindou.  As crianças bebem em recipientes de plástico, para não correrem riscos, e não porque são inferiores. Massssss... são regras



8- Terminou seu ajeum? Pegue seu pratinho e sua canequinha, vá para cozinha e lave. Não cai a mão e nem coça, sabia? Infelizmente ainda não possuímos uma empregada que possa cuidar da limpeza geral enquanto nós descansamos. Essa é perfeita para todos, não só para os noviços.



9- Como dissemos no ítem anterior, não temos uma empregada para limpar tudo. Portanto, cada um deve se conscientizar e fazer a sua parte. Ficar protelando, esperando que algum irmão de santo se encha da bagunça e vá arrumar por você não tem cabimento. Cada um fazendo um pouco fica mais fácil e rápido. Perfeito.


10- Resolveu visitar o pai de santo? Que maravilha! Ele adorará sua visita, ainda mais se você vier com uma modesta colaboração para o ajeum, pois como é do conhecimento de todos, o pai de santo não é rico e nem tem obrigação de alimentar todo mundo. Madre Teresa de Calcutá já morreu, e definitivamente, ela não vira na cabeça do pai de santo. Colaborar, com certeza, não por este enfoque, e sim por vivermos em uma comunidade onde o zelador de santo não é um mantenedor de pessoas, a função dele é orientar, resguardar, conduzir, etc., e não sustentar. 

11- Ao chegar ao barracão, o procedimento correto é: a) Amarrar um pano no peito (mulheres) ou na cintura (homens); b) Ir direto para a cozinha beber um copo d’água para esfriar o corpo da rua, sem fazer paradas para bater-papo e colocar a fofoca em dia; c) Tomar seu banho e ir trocar de roupa; d) Bater cabeça no axé, na porta do quarto de santo e pro pai de santo; e) Tomar a bença à TODOS os seus irmãos, sendo mais velhos e mais novos, de acordo com a ordem iniciática. Agora sim, caso não haja nada em que se possa ajudar (muito embora seja impossível, pois em uma casa de santo sempre tem algo a ser feito), você pode ir colocar seu tricô em dia. Perfeito, são regras para serem cumpridas.

12- Você trabalhou feito a escrava Isaura e se cansou? Acabou de fazer todo o serviço? Bem, agora você pode pegar o seu maravilhoso APOTÍ e confortavelmente sentar-se nele. Como dissemos no item 5, cadeiras, sendo com ou sem braço, só ebomis, ekedes, ogãs ou zeladores que podem sentar. Existe uma variável do APOTI¹, que é a famosa ESTEIRA. Nela você pode se sentar, se espichar e até relaxar seus ossos. Ela é sua! Aproveite! Critérios

13- Em sua casa, quando você faz uma comemoração qualquer e é servida uma refeição, você sai atacando o ajeum na frente de seus convidados? Acreditamos que não, né? Portanto, na casa de santo é igual. Antes os mais velhos devem se servir, pra só depois os abians e yawos se servirem. Isso é mais que uma regra, é etiqueta. E você não vai querer ser um deselegante, não é? Lembre-se: Estão sempre observando você…Regras de educação

14- Você gosta que fiquem pegando suas roupas emprestadas? Pois é, o pai de santo também não gosta. Portanto, que tal ir no Varejão das Fábricas e comprar um belíssimo tecido de lençol a R$ 4,50 e fazer uma baiana de ração básica pro dia-a-dia? Não sai caro e fica uma gracinha. E você finalmente pára de pegar a roupa do alheio emprestada. Não é maravilhoso? Todos na casa contentes e felizes com suas devidas roupas. Essa é ótima. Regras de simancol. 

15- Quem traz dinheiro para o sustento da casa? Você é que não é. Portanto, trate muito bem os clientes que vão para jogar ou se consultar, pois é deles que vem boa parte do dinheiro dali. Sorrir sempre e servir um copinho de café ou de água gelada não mata ninguém. Que tal tentar? Temos que tratar a todos com gentileza e educação, não por este motivo.

16- E vai rolar a festa! O povo do keto, do jeje, da angola e até da umbanda já mandou convidar. Mas, e o dinheiro para comprar o ajeum e o otí do povo? Com certeza o Carrefour não irá mandar as coisas de graça para o barracão, nem o Mercadão de Madureira tão pouco irá dar os bichos e todo o material restante. Portanto, que tal se todos coçassem o bolso um pouco e ajudassem? Se a festa for do vodun/orixá/nkise da casa, todos temos que colaborar, dentro dos limites de cada um, afinal de contas ele é o responsável por todo o clã de deuses, ali participantes. Se for de um irmão que não tem condições de arcar com as despesas de sua obrigação, e essa se faz necessária, é obrigação ajudar, somos uma família. 

17- Você acha que só por este local ser uma casa de santo, a Light, a CEG e a CEDAE irão fornecer água, luz e gás de graça? É claro que não. Portanto, contribua sempre com a sua módica mensalidade. Economizar um pouco na Skol e no cigarro no final de semana já irá ajudar muito no barracão. Valido

18- O mundo está em guerra, existe muita gente por aí passando fome. Portanto, por que desperdiçar comida? Fazer a quantidade exata só para quem trabalhou dignamente e contribuiu com este maravilhoso ajeum é o coerente, pois você não está no programa da Ana Maria Braga para comer de graça. Por falar em Ana Maria Braga, lembre-se que você não é o Louro José para dar palpites no barracão. Se você tem alguma sugestão, leve-a antes ao pai de santo. Espalhar a corrupção sobre a Terra era coisa da novela passada. Regra dos bons costumes 

19- Ficou cansado depois da festa? Nada de ir pegando sua bolsa e ir saindo de fininho. Lembre-se da limpeza do barracão. Perfeito e para todos

20- Roda de candomblé, seja em sua casa ou na casa do alheio, não é lugar de ficar de cochicho e risinhos irônicos. Se você quer fuxicar, vá para um botequim. Perfeitooooooooo, para todos. 

21- Anágoas encardidas, só se for depois da festa do candomblé. Antes, NUNCA, JAMAIS, NEM PENSAR! Devem ser brancas como a neve, salve anágoas de ráfia ou entre-tela.
Regras de cuidados pessoas em qualquer lugar.

22- Você, irmãozinho, que vê o mundo cor de rosa-choque com bolinhas amarelas, deve deixar esta sua visão progressiva e moderna do lado de fora do barracão. Ali dentro você tem que ver tudo branco. O mesmo vale para as coleguinhas que vêem tudo azulzinho. Casa de orixá é para louvar e cuidar do Orixá, e não para arrumar casório. Até pode acontecer, mas não deve ser a intenção 

23- Vai rolar um churrasquinho de gato na casa do seu coleguinha no meio da semana, no mesmo dia de função do barracão? Então, peça para ele guardar uma garrinha de carne para você e venha cumprir suas obrigações junto a seus irmãos.  Não com esta motivação. No meu ponto de vista, estar presente nas funções, é uma questão de prioridade e religiosidade. Mas há que se entender que em determinados momentos familiares ou se for uma ocasião daquelas que vc não pode deixar de estar presente pois, acarretaria uma enorme desconsideração por alguém de grande significância em sua vida, a sua religião poderá não ser a prioridade. Religiosidade é a pratica da religião e não uma opção de vida, e se assim for é escolha de cada um, não tem que ser de todos. A ausência em um oro não desqualifica a religiosidade de ninguém, afinal de contas todos temos vida social, afetiva, familiar e religiosa. Esta compreensão tem que fazer parte dos critérios de um líder. Por questões de respeito e responsabilidade, o Zelador/a deverá ser avisado de sua ausência, SEMPRE. Esta postura de ausência em um oro não pode ser uma praxe, afinal de contas temos deveres e direitos, mas tem que ser considerada e compreendida.

24- Se sua irmã de santo tem uma baiana mais humilde do que a sua, nada de ficar xoxando. Lembre-se, o mundo dá voltas e o feitiço pode virar contra o feiticeiro.
Amanhã pode ser você com uma baiana de chita e ela com uma belíssima saia de rechilieu.
 Isso seria um desvio de caráter e não uma regra ou critério descumprido.

25- Caso assista fora do seu barracão a algo diferente do que ocorre em sua casa, nada de ficar xoxando e chamando de marmoteiro. Você não é o dono da verdade e nem ninguém o é. O que pode parecer maluquice pra você, pode não ser para próximo. Além do mais, comentários sempre são feitos depois. Vai que tem alguém conhecido escutando? Perfeito. 

26- Ninguém tem mais ou menos santo que ninguém. Isso é regra. Sempre. Perfeito 

27- Respeito é bom e conserva os dentes. Portanto, deve-se pensar duas vezes antes de envolver o pai de santo e irmãos mais velhos em determinadas brincadeiras de mau-gosto. Apelidos e avacalhações são da porta do barracão pra fora. Além do mais, a próxima vítima pode ser você. Essa também é para todos, não  só com zeladores e mais velhos

28- Roupa de barracão é saia comprida, camisú e pano da costa. Shortinhos e top’s devem ser usados somente pra ir ao baile funk. Perfeito 

29- Sempre que for servir algum mais velho de santo, deve-se levar o pedido numa bandeja ou prato e abaixar-se para servir. Nunca olhar no rosto da pessoa. Responder somente “sim” ou “não”. Regras da religião, você pode fazer isso tudo sem tanta subserviência.

30- Bença foi feita para ser trocada. Sempre que você pede a bença, você está na realidade pedindo a bênção ao Orixá da pessoa, e não à ela própria. Portanto, todos devem trocar a bença, mais velhos com mais novos e vice-versa. Com certeza. Só um adendo, nunca mas nunca, na troca de benção estique sua mão para que lhe peçam a benção, isso é de uma prepotência e falta de educação, incomensurável.

APOT͹: A casa constantemente precisa de apotís. Nos grandes supermercados vendem higiênicos banquinhos de plástico a R$ 6,50. Coopere com a casa e leve o seu. 
* faltou lembrar das velas Santo (Orixá) precisa de luz uma velinha de 7 dias não custa tão caro,

* quando chega visita de outra casa.Recebe-los como irmãos, guardando a hierarquia, mesmo qdo tem um abian tirando onda de mocotona(antiga). Isso é regra de educação.

Outra coisa, nao antecipar-se aos mais velhos ao acolhimento das visitas qdo não se está designado p/isto. Perfeito

BEM MANOS ESPERO TER CONTRIBUIDO E SE PUDEREM ACRESCENTAR SERÁ MUITO BOM ! 
ASÉ

Oração de uma Iyawó

"Que a energia que habita em mim permita que eu mantenha sempre a cabeça baixa e os pés no chão, afim de manter a humildade. Que eu tenha sempre bons ouvidos, atentos para os ensinamentos daqueles que vieram antes de mim, meus orixás, meus ancestrais, meus mais velhos e fechados para o que não convém. Que eu possa ter o coração aberto para a experiência de ser omo orixá, mas principalmente a boca fechada, pra não levantar falso, não cometer injúria e não deixar que o sopro que sai de minha boca se contamine com palavras vãs.
Que meu ori mantenha esse compromisso todos os dias. Assim meu comportamento será digno de minha divindade e minhas ações respeitarão o deus vivo que há em mim."

Um comentário:

Fatima do Ogun disse...

Querida mãe suas colocações só vieram para contribuir para que repensemos sobre nossa religião tão linda e tão preciosa. Quando digo , preciosa, refiro-me às divindades que estão sempre prontas para nos acolherem com amor e carinho.
O Candomblé tem ferramentas fantásticas para auxiliar a todos nós a nos tornamos pessoas melhores, mas nós praticantes precisamos rever conceitos que são muito pequeninos diante da dimensão humana e das grandes solicitações exigidas pelo próprio progresso.
Outras religiões pregam a "libertação" enquanto que algumas práticas entre líderes e filhos de santo dentro do Candomblé ainda parecem próximas a subserviência. Talvez essa seja a causa da "evasão" ocorrida, diariamente dentro dos Barracões.
"Respeito" não precisa ser imposto, até pq devemos trazê-lo de casa e quanto mais não ocorra, isso pode ser tratado também, pelas vias de uma boa conversa que torne o chamamento íntimo "aquele" que têm dificuldades em entender "limites"
Há um conceito interessante sobre "autoridade" e "autoritarismo" de Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA em que se diz:
- A autoridade pode ser exercida com autoritarismo ou não, e talvez a real diferença entre as duas posturas esteja na questão do respeito. Pelo respeito pode-se evitar o tripúdio da arrogância sobre a autoridade necessária, ou a transformação dela em autoritarismo.

Axé minha querida mãe!Fátima do Ogun