quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O ELEMENTO SAGRADO


Quando os olhos se perdem na imensidão do mar, é possível ter uma idéia do volume de água que nos cerca. Dois terços do planeta são cobertos por esse fluido do qual depende a evolução de todos os organismos vivos. Nos oceanos, rios, pólos ou no interior das rochas, são 264 milhões de km3 desse líquido essencial, perpetuado pela humanidade como símbolo sagrado de pureza e prosperidade.

No batismo da Igreja Católica, na sabedoria popular das benzedeiras, nas fontes sagradas da cultura islâmica ou na astrologia, a água é fundamental para a purificação e o conforto do corpo, da alma e dos ambientes.

Rebeldia em movimento
Rio, cachoeira, mar, chuva, neblina, vapor, granizo, neve, gelo. Essas são manifestações da água, e uma, em especial, nos saúda com sete cores: quando os raios do Sol atravessam as nuvens carregadas, surge o arco-íris. Diz-se que quem tem a sorte de vê-lo pode fazer um pedido, que será atendido pelos céus.
Dinâmica por natureza, está em constante movimento e guarda em si poderes fundamentais. O primeiro deles: é capaz de se autopurificar: "A água circula continuamente no planeta. Oceanos, rios e até lagos plácidos recebem calor e não escapam do processo de evaporação. A água, condensada, vira nuvem e precipita-se de volta a terra em forma de chuva. Nesse ciclo de destilação natural, todas as impurezas são liberadas. A chuva purifica o ar e fertiliza a terra
Poderosa e rebelde por excelência, escapa das nossas mãos e pode mostrar sua fúria em dilúvios, enchentes e maremotos. Ainda, ela não se submete aos outros elementos naturais: Além de apagar o fogo, na presença de calor transforma-se em vapor e a baixas temperaturas vira gelo. O próprio fato de ser líquida e manter sua constituição molecular contraria as leis da física e da química, mas essa rebeldia teve resultado feliz: "A água permitiu o desenvolvimento da única forma de vida compatível com as características do planeta Terra. Foi no meio aquático, formando imensas superfícies líquidas (...), que surgiram as primeiras formas vivas".

Ventre materno e paraíso
Toda a vida na Terra nasceu do mar, que é o ventre fecundo da Grande Deusa. Todos nós viemos das entranhas das águas. Essa linda imagem pertence a um dos mitos de criação da era pré-cristã, e na verdade, antes de pisarmos na terra passamos nove deliciosos meses em meio líquido, protegidos no ventre materno.
Nem mesmo nascendo e vivendo fora dessa primeira casa aquática deixamos de ser água: 77% de um bebê é pura água. E dois terços do corpo adulto são compostos de líquidos: lágrima, sangue, suor, urina e outros fluidos, responsáveis pela purificação das toxinas e absorção de nutrientes dos alimentos pelo organismo.
Essa origem líquida ancestral tem a ver com a sensação de relaxamento e conforto que a água provoca nos humanos. E também explica por que tanta gente sente atração por fontes e prefere descansar numa praia, perto de rios, lagos ou cachoeiras: "O som das ondas batendo na areia ou de uma queda d’água é sempre repousante e pacificador. Sem contar que o contato com a água – meio em que o corpo não briga com a lei da gravidade, flutua, sem peso – remete à sensação protetora de estar de novo no útero materno, em perfeita harmonia".

Universo de emoções
Desde tempos remotos, a água é associada às emoções, ao mundo inconsciente, a tudo que acontece nas profundezas da alma. À astrologia coube tecer as relações entre os elementos da natureza e a personalidade: "São três os signos de água: Câncer, regido pela Lua, representa a água do lago, calma, plácida, acolhedora; Escorpião, dominado pelo planeta Plutão, diz das águas dos rios com correnteza subterrânea; e Peixes, sob os domínios do planeta Netuno (deus das profundezas dos mares, na mitologia grega), abrange as grandes águas, as emoções coletivas".
Especialmente, os nativos de Câncer são ligados a casa e às forças lunares: "Apesar de a Lua não ser aquática, tem o poder de mexer com o fluxo das marés, com a cheia ou a vazante dos rios. Os pescadores prestam muita atenção nas fases lunares, pois delas depende a sua sobrevivência. Além disso, mexe com os ciclos de menstruação e gestação. Todos fenômenos femininos e líquidos".

A Água na alma da casa
A habitação é um ser vivo, capaz de refletir as emoções de seus moradores, principalmente se neles predominar o elemento água: "Essas pessoas gostam de cuidar das pequenas coisas do cotidiano, e seus lares sempre inspiram afeto. Têm prazer em cozinhar, lavar, limpar, tomar banho, regar plantas, alimentar animais e pássaros. Mas nem por isso deixam tudo superarrumado. Com predomínio da água no temperamento dos habitantes, o caos e a desorganização imperam".
A água que habita a alma da moradia se expressa também na composição dos ambientes. Móveis arredondados e tons pastel, banheiros espaçosos e bem cuidados, sauna, piscina são índices de que se trata de uma "casa aguada". Quadros impressionistas com formas pouco definidas, música suave, vasos com flores, conchas, aquários, motivos marinhos, fontes, fotos de família, objetos de valor afetivo nos remetem à simbologia da água, provocando sensações de tranqüilidade, limpeza, frescor e aconchego.

Elemento sagrado
A água tem o poder de purificar o espírito e conduzir à graça. Da antiga religião hindu até a simplicidade das boas benzedeiras da cultura popular brasileira, ela merece reverência: afasta o mau-olhado, protege do pecado, traz alívio para o que aflige a alma.
Assim como Jesus Cristo foi batizado por são João Batista, mergulhando a cabeça nas águas do Rio Jordão, milhares de igrejas no mundo repetem esse ritual: "No cristianismo, a água tem dupla função. No ritual de batismo ela livra o fiel do pecado original, devolve a pureza e concede vida nova, para que se possa seguir no caminho do bem". Já a água benta, misturada com um pouco de sal e rezada pelo padre, é usada para benzer casas e carros e, além de purificar, tem outras duas funções importantes: "Faz com que a pessoa tome gosto pela vida e protege o local contra todo o mal".

Reverência molhada
No Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos seguidores do profeta Maomé, a água tem destaque em rituais e na arquitetura: "Na entrada das mesquitas há sempre um tanque de água, pois todo muçulmano praticante faz cinco orações diárias e, antes de cada uma delas, realiza a ablução, uma purificação prática e simbólica. Lavam-se mãos, braços, rosto, cabelos, nuca, orelhas e, no final, pés. O gesto é repetido três vezes".
Na arquitetura árabe, seja em pequenas ou seja em grandes construções, no centro do pátio interno existe sempre uma fonte, simbolizando a origem e o centro da vida: "A cuba costuma ter forma circular e fica apoiada sobre uma base de oito lados. Na geometria sagrada, essa sobreposição representa a união do céu com a terra"

Rio da graça
O mais sagrado dos rios é o Ganges, que corta o nordeste da Índia. Suas águas matam a sede e banham a população ribeirinha, lavam as roupas, dissipam as cinzas dos mortos cremados, perpetuando a tradição hindu e, sobretudo, servem para redimir os pecados. Na edição inglesa do livro Mirror of Intellect – Essays on Traditional Science and Sacred Art, o filósofo suiço-alemão Titus Burckhardt (1908-1984) desvenda poeticamente o que acontece nesse rio: "Aquele que, contrito, banha-se nas águas do Ganges é liberto de todos os seus pecados: a purificação interna encontra aqui seu porte simbólico na purificação externa que vem da água do rio sagrado. (...) Aqui, como ritos similares em outros povos e religiões, a correspondência entre a água e a alma ajuda a última a se purificar ou, mais exatamente, a reencontrar sua – originalmente pura – essência. Nesse processo, o símbolo prepara o caminho para a graça..."


Texto: Yatemi Jurema de Yansã

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